Casa d'Aldeia é a casa original, a mais antiga habitação de minha cidade natal Cachoeira do Sul. Habitação, que, igual a cidade, apesar de tantos golpes de vento e borrascas sazonais teima em manter ao menos duas paredes de pé. Casa d'Aldeia é a minha casa. Seja bem vindo a ela!
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30 de dez de 2008

ANO NOVO


Realmente não tenho nenhum assunto pra abordar... Taí o fim do ano, e pra mim 2008 decorreu sem maiores assombros, tampouco sem as afamadas e decantadas realizações. Todos se esfalfam, se arvoram, se debatem & descabelam-se atrás de cumprir as tão precisoas realizações, mas chegar ao fim demais um ano vivo é uma tremenda realização. Ter um chinelo pra por sob os pés, uma roupa qualquer pra vestir, algo pra enganar a fome. Ter amigos é maravilhoso.

Ter acesso a internet, imagina isso é um luxo - ter amor seria a glória, porém não posso abusar da sorte exigindo muito.

Enfim tô aqui torcendo muito pra que tudo se realize no ano que vai nascer - seja o que for. Torcendo pra ter paciência, saco, pertinácia - êta palavra esquisita, vem do latim: teimosia. E tal defeito ou qualidade, depende da circunstância e ponto de vista, claro, tenho de sobra.

Desejo pra todos um pouco de teimosia aliada a uma dose generosa de saúde & sorte. Ah! Não falei em dinheiro. Pra quê falar em dinheiro? Justo quando não tenho o desgraçado.

29 de dez de 2008

Camarão é a mãe!


" Assassinaram o camarão..." Cantava o grupo Os Originais do Samba. E entre os seus integrantes estava o saudoso - esse sim engraçado, trapalhão Mussum. Pois não é que para minha surpresa, desde a aquisição de meu novo celular tenho recebido chamadas de pessoas desconhecidas perguntando por um tal camarão.

- Alô! É o camarão? Perguntam.

- Aqui não tem nenhum crustáceo.Respondo.

- Alô camarão. Insiste um outro. Ea réplica desejada por mim não sai. Afinal não serei gratuitamente ofensivo com alguém a troco de engano. Só respondo:

- Liga pro nordeste. Criação intensiva é lá.

Contudo, mesmo em se tratando de uma turma polida essa dos crustáceos, equinodermos e moluscos todos amigos e parentes desse um tal camarão, são impertinentes. Não abandonam os modos ruins, os vícios da má educação pelos quais os brasileiros sõa famosos mundo afora. Ligam para meu celular e têm a desfaçatez deperguntar:

- Quem fala?

Ora pelotas! Se não sabe para quem ligou por que efetuou a chamada? Se não tem certeza então pergunte demaneira educada:

- Este é o número de cicrano?

Mas, coincidência ou não meu apelido de escola era tubarão. Por conta de eu ser torcedor do Colorado e haver no Grêmio um centro avante meu xará, Alexandre Tubarão. As coincidências param por aí. Entre eu e esse camarão requisitado há um oceano (se permitem o trocadilho) e meio de distância. Afinal o camarão é um crustáceo pertencente à ordem dos decápodes podendo habitar águas doces ou salgadas. Já o Tubarão trata-se de um peixe aparentado das arraias, e, no caso do "Carchanodon Carcharias" (tubarão branco) na ilustração, se encontra no topo da cadeia alimentar oceânica. Embora, frequentemente as orcas não respeitem essa hierarquia, e tenham por mau hábito caça-los.

E pra finalizar essa arenga toda: Camarão é a mãe!

NARIZ DE CÊRA NÃO CHEIRA


"NA BOSTA ALI DA CABRITA"... Assim grunhe a analfabeta Totonha, personagem do conto homônimo. Do livro Contos Negreiros de meu amigo Marcelino Freire. Na bosta ali da cabrita vivem milhares, milhões de brasileiros, amargando dia após dia uma desesperança sem graça nenhuma, senhoras e senhores. Sem nenhuma graça. Senhoras e senhores filhos da puta!

Senhoras e senhores biliardários - podres de ricos. Seria preciso um milhão de reencarnações para que pagassem seus crimes de lesa povo, lesa pátria, lesa humanidade. Essas atrocidades vituperinas cometidas cotidianamente por vocês que de uma hora para outra resolveram dar o calote no sistema financeiro, e, para o horror de um mundo apostador fiel no capitalismo, tiveram de se socorrer nos estados. Dinheiro público para salvar a burguesia gorda. A burguesia esperneante, vociferante, tonitruante contra os "COMUNISTAS". Houve de se socorrer do estado. Ato declaradamente comunista - estado pai de todos. Estado provedor... Nós, enquanto não tivermos poder de fogo não teremos poder de barganha. Nisso, e apenas nisso concordo com Hugo Chávez, o companheiro do Kiko equatorenho e do seu madruga paraguaio, enquanto a Chiquinha brinca de governar a Argentina. Enquanto não tivermos poder de fogo não teremos voz, nem vez. Poderão entrar e levar as riquezas que quiserem. Poderão internacionalir a Amazônia, o Samba, Pelé, o Churrasco, o Acarajé, o Baticum prugurundum e o skindô. E não poderemos fazer nada senão continuar ali. Nariz enfiado na bosta da cabrita... Bééééééééééé!

26 de dez de 2008


Tudo bem. Passou. O Natal passou. Passamos, melhor dizendo. Não de todo incólumes. Não de todo "passamos bem". Porque gente morre por besteira, gente morre por nada, gente morre. Não seria melhor morrer por uma causa - ao menos não seria louvável viver por uma causa? Não seria lógico haver cooperação mútua entre os "entes humanos"? Não seria lógico haver ajuda entre os da mesma espécie? Que merda de modelo social é esse? Que josta de sociedade é essa classificando os indivíduos e grupos humanos conforme parâmetros subjetivos e loucos? Que raio de mundo de merda é esse constituído no arcaísmo - no primitivo, de classes sociais dominantes, e outras subservientes?

Por muito tempo - e isso desde menino, pensei que o mundo não havia saído jamais da idade média. Haveriam reis, nobres e potentados dos quais todos nós éramos vassalos. Não clientes, mas vassalos sem direito a voz nem voto. Sem direito a nada senão cumprir as tarefas, atingir as cotas de produção, pagar impostos e ceder aos desejos de nossos suseranos. Inclusive à "prima nocte", ocasião na qual evocando não sei que direito o senhor das terras e das vidas de seus servos escolhe dentre nossas filhas núbeis a virgem com a qual irá deitar-se.

25 de dez de 2008

ENTÃO É NATAL





ENTÃO É NATAL! PÔXA, EU NEM HAVIA PERCEBIDO. SÃO TANTOS OS RECLAMES PUBLICITÁRIOS - TANTA APELAÇÃO AO CONSUMO. SÓ SE FALA EM PAPAI NOEL, NOS PRESENTES E NA CEIA DE NATAL. MAS, TENHO CÁ MINHAS DÚVIDAS SE O ANIVERSARIANTE POUCO CITADO, CUJA VIDA SE PAUTOU POR OBJETIVOS "LIGEIRAMENTE" MAIS IMPORTANTES APROVARIA ESSE DESENFREIO. CREIO QUE NÃO.
DESEJO QUE AS PESSOAS, NESTE E NOUTROS NATAIS, OLHEM MENOS PARA O SUPÉRFLUO E VALORIZEM MAIS A VIDA. IMPORTANDO-SE COM A SITUAÇÃO DO PRÓXIMO.
NÃO SOU RELIGIOSO, PORÉM NÃO SOU CEGO, TAMPOUCO INDIFERENTE A ESTE MUNDO DESVIRTUADO DO SENTIDO REAL DAS COISAS.


















23 de dez de 2008

Pleonasmos e barafundangas


"- O sol amanheceu bem quente!" Afirmou categórica a repórter do SBT com seu rosto quadrilátero ameaçando obstaculizar parasempre a pequena tela de meu modesto televisor. Em dúvida sobre ater-me ao estrabismo da moçoila ou negacear esboço eqüino de sorriso ensaiado precisamente ás 6hrs36m de uma manhã de quarta-feira. Pasmado descobri uma nova muitíssimo interessante:

O sol, astro rei, uma estrela amarela de dimensões nada incomuns, classificado quanto a idade como um balzaqueano saudável, transigindo o verbo: Amanhece quente. Ou seja, no período noturno, além da impossibilidade do sol amanhecer ele é mais fresquinho.

Esse é só um exemplo do desserviço prestado por inúmeros comunicadores ao maltratarem a língua portuguesa sem dó.

Em protesto, a foto ilustrativa deste opúsculo retrata o sol poente!

22 de dez de 2008

Herói Nacional - parte I


"Ai! Que preguiça." Exclamava o único e legítimo herói nacional. Nascido preto, mas tornado branco voluntário ao entrar no jorro duma fonte mágica, lá, na beira dos cafundós do Mato Dentro, ou seria Mato Fulano - sei lá. Tudo isso é mesmo saído do imaginário cafuzo popular, bem peneirado na joeira fina da mente poderosa e criativa de um monstro das sabenças litero-músico-folclórico-brasílico-paulistanas. O arlequinal rapsôdo modernista, estudioso incansável das artes e escritor Mário de Andrade. Mário descreveu o nascimento hilário do curumim cafuzo Macunaíma expelido do ventre masculino (pois é isso- nasceu de mãe velha e masculina) da índia Tapanhumas, enquanto ela nem aí ó, tratava duma lida qualquer - moqueava um naco de jacú no fogo, e isso da índia ter se ocupado do moquém é invencionice descarada minha.
Contudo Macunaíma foi ás telas de cinema dirigido por Joaquim Pedro de Andrade. Uma das raras produções nacionais dignas de nota naqueles anos de chumbo - 1969. O diretorJoaquim Pedro, em que pese a dificuldade de se adaptar ao cinema uma obra cuja linguagem é quase experimental, conseguiu a façanha de capturar a aura mítica das personagens de Mário, ajudado claro, por um elenco primoroso com atuação estupenda. Capaz de dar vida à rapsódia burlesca do gênio arlequim da Paulicéia Desvairada.
Escrita por um poeta do quilate de Mário a "rapsódia", como ele costumava chamar seu livro, oscila entre o lírico e o misticismo pagão, com nesgas panfletárias contra a era Vargas - de quem Mário era desafeto simpático (se é que tal coisa seja possível - e em se tratando de Mário provável que sim). Tudo muito bem aproveitado na adaptação do roteiro para os nefandos dias quando Costa e Silva era presidente da República.
O ator riograndense Paulo José encarnou Macunaíma, mocetão, já branqueado pelo jorro da fonte. Grande Otelo que fora a criança cariboca, curumim esperto, malicioso que gostava de bulir nas partes da cunhada Sofará - Joana Fonn. Afeito à preguiça, e aos brinquedos de "se rir" com as cunhãs. Bulia sempre com as mulheres que Jiguê seu irmão, interpretado por Milton Gonçalves, arranjava.

20 de dez de 2008

Uniformidade X Diversidade




Sem pudor nenhum o sistema sócio-político contaminado pelo ideal positivista do Brasil República negou ás populações marginais (negros, índios, brancos pobres e mestiços) direito a inserção correta e justa de seus papéis na história. E foi além: Não se preocupou, conforme passava o tempo, em corrigir as distorções e retificar os mal contados. Deixou abater sobre toda gente humilde a pecha da preguiça, da pachôrra, do comportamento desajustado em sociedade. Difamou acintosamente a etnia africana, quando de modo inexplicável representantes da intelectualidade contemporânea fizeram coro com autores antigos cuja opinião distorcida não poderia expressar verdade científica, ao concordarem com esses sobre a baixa capacidade intelectual do elemento negro.


Suponho que os maus aparelhados pesquisadores e folcloristas de antanho tomassem por base para essas constatações aberrantes os estudos não menos escabrosos de canalhas pseudo-científicos como o alemão Franz Joseph Gall e o italiano Cesare Lombroso. Entre outras coisas, esses pichelingues da ciência pretendiam avaliar sem erro características psicológicas humanas simplesmente correlacionando as medidas de partes do corpo do investigado.


Anotadas as diferenças assimétricas entre crânio, face e mandíbula, por exemplo, os tais "doutores" estavam aptos a determinar se o indivíduo sob exame tinha propensão para o crime em alto ou baixo grau, e que tipo de personalidade ele apresentava.


Se não fosse trágico seria cômico. Pensar que tais embusteiros taxassem como anormais aqueles em cujas faces e membros não encontrassem a proporção áurea, ou "número de ouro". Uma constante algébrica encontrada nas figuras pintadas por mestres renascentistas. Todos eles, pintores renascentistas e pseudo-cientistas representando então um corpo de jurados da elegância, espécie de juízes da beleza. Estetas tão refinados a ponto de discordarem da natureza no que consideravam falha e imperfeição.


Imaginemos um indivíduo baixo, talvez menos de um metro e sessenta. Compleição física magra, rosto afilado, orelhas desproporcionais, bigodes generosos, cabeça enorme ostentando vasta calva. Esta descrição bem poderia se aplicar a um sujeito proveniente de uma das tantas etnias da África. Entretanto enquanto descrevia o gajo eu pensava em Rui Barbosa "a águia de Haia", patriarca da intelectualidade do Brasil. Certamente tinha lá uma mistura de sangue, mas era reconhecido como branco. Sem dúvida era uma pessoa fisicamente assimétrica, que pela lógica torpe dos antropometristas Lombroso, Franz Gall e seus sucessores, preenchia todos os requisitos para ser classificado como psicologicamente perturbado, intelectualmente débil, e, certamente um facínora.


Deformidades e imperfeições físicas nãopredestinam ninguém a tornar-se mau caráter ou boçal. Que os negros apresentassem, após a abolição, comportamentos não condizentes ao que os brancos esperavam deles é algo justificável. Não pela índole, e sim pela reprodução do modo de vida e do tipo de sociedade em que viviam na África. Passado como Herança cultural aos nascidos no Brasil por seus genitores.


Diagnosticar, seja por que motivo for, indolência, preguiça e outras mazelas nos afro-descendentes a partir da observação de um comportamento anômalo às vistas da sociedade branca torna-se feito, no mínimo, temerário.


Se a princípio os ex-escravos não se mostravam diligentes empreendedores, isso merece uma investigação muito mais aprofundada. Em suma, no tocante à capacidade intelectual dos afro-descendentes em solo brasileiro mostrar-se baixa conforme afirmam alguns dos nossos etnógrafos, sociólogos e historiadores contemporâneos eu discordo veementemente. Para os interessados em se aprofundarem nessa e noutras questões pertinentes ao tema sugiro a leitura das obras do professor e historiador Mário Maestri.

19 de dez de 2008

Perfil do herói nacional II



Zé Trindade (pseudônimo do baiano Milton da Silva Bitencourt) encarnando seu personagem, se contrapunha totalmente à imagem do sujeito ingênuo, rural, de espírito puro e boa praça de Mazzaropi na sua emblemática interpretação do Jeca Tatu.
Zé Trindade e Grande Otelo incorporavam os malandros urbanos. Rapineiros, loquazes, ladinos. Cheios de artimanhas, ases nas mangas e um discurso apropriado para safarem-se em cada ocasião: perigo, fuga ou desembaraço. De forma menos romântica, mais próxima do capitalismo selvático (já que o tipo surgia justamente no Brasil pré-industrializado de JK) realidade que chegava com a indústria automobilística ao país. Zé Trindade personificava um sujeito ensebado, cafageste e trambiqueiro. Um pilantra de cacife muito baixo, sempre disposto a aplicar pequenos golpes nos otários de plantão - do jogo de chapinha às loterias (o jogo de chapinha consiste em adivinhar sob aposta onde está escondida uma bola de miolo de pão entre três tampas de garrafa dispostas, usualmente a bolinha está na mão do malandro que faz o jogo).
Assistiraos filmes em P&B protagonizados por Zé Trindade, Grande Otelo (parceiro frequente dele), Oscarito, Anquito, Costinha e muitos outros que não sejam debilóides sem graça como Renato Aragão e Dedé Santana - é uma delícia.
E pra quem pensa que as chanchadas eram produções ingênuas: Ouvidos atentos e olhos abertos que o subtexto é uma atração à parte. Vale tudo: Da crítica sutil, ás vezes nem tanto, ao regime e aos costumes de época às maiores demonstrações de sexismo e picardia. Tudo conduzido sem apelação excessiva. Bueno! Esse era um tempo quando haviam ótimos roteiristas,ás pencas. Com verve, imaginação e vocabulário. Assim os "heróis" podiam caprichar no "Chalalá" sem dar vexame. Depois veio a ditadura militar, o AI/5 e a televisão aos poucos emburreceu levando ao desterro nossos ídolos: Um certo Coronel Odorico, Shazan e Sherife, Macunaíma, Zé Trindade, Azambuja (personagem do genial Chico Anísio) e tantos mais que davam a tônica do heroísmo "nacionár!"

17 de dez de 2008

São Paulo

Preciso mudar-me, já não suporto a vista da minha janela. Daqui vejo todo o centro da cidade. Da cidade que não pára de crescer. Cresce a cada segundo. Cresce enquanto estou dormindo. Cresce a cada pensamento. Cresce enquanto transito no oitavo andar desse edifício. Um edifício quase tão velho quanto à cidade. Mas, hoje, abro a janela e grito. Berro no coração da cidade. Berro porque já não suporto o que quero. E quero mais do que escrever para jornais. Quero o meu rosto em close, por duas horas, num filme de Andy Warhol. Quero dois gramas de pó, diariamente, no meu breakfast. Quero chegar em casa, as seis, cansado da jornada de trabalho na repartição pública, e encontrar Camille Paglia de roupas íntimas a minha espera.
Cláudio Portella é escritor. Nasceu em Fortaleza em 1972. Autor de Bingo!(Porto – Portugal: Editora Palavra em Mutação, 2003) e de Os Melhores Poemas de Patativa do Assaré (São Paulo – SP: Global Editora, 2006). O escritor é publicado em revistas, jornais, suplementos, revistas eletrônicas, sites, blogs e flogs.

16 de dez de 2008

O perfil do herói nacional - parte I

Talvez o personagem cômico do cinema nacional de comportamento mais aproximado a meu ídolo "Macunaíma" seja um saudoso ator das antigas chanchadas da Atlântida: Zé Trindade. Baixinho, enrolador. Um tipinho e tanto. Vez ou outra sapecava olhando fixo as coxas portentosas de uma vedete como Renata Fronzi: "- O negócio é rosetar!"
Esse era Zé Trindade, um anti-herói. Nem ingênuo como Oscarito, nem galã como Sil Farney, tampouco valente igual a Jece Valadão.
Zé Trindade "caixa baixa" como eu, encrenqueiro, fazia sempre o mesmo personagem que vivia de trambiques. E na base do "conto e quinhentos" ia distribuindo um salame aqui outro acolá entre viúvas ricas e madames desquitadas...

2 de dez de 2008

Estupidez mexeriqueira

Pessoas provenientes das mais diversas classes sociais agem costumeiramente de modo grosseiro quando desejam saber da vida alheia. Todavia, aquelas menos afeitas à instrução, as desertoras dos bancos escolares, as sem leitura, cujo pensamento sempre considerou perda de tempo entreter-se, às voltas com a "miscelânia de palavras difíceis" escritas em folhas de papel. Essas invariavelmente demandam o uso muito menos frequente de cortesia e polidez. Perguntam sem rodeios a qualquer um:
- No que tu trabalha? Inquirem castigando a língua de Camões enquanto coçam a cabeça ou demonstram outro cacoete qualquer.
- Quanto tu ganha? Tu casou? Nenhum constrangimento tem efeito sobre esses duendes abusados.
Outro dia eu caminhava em direção a minha casa quando fui interceptado por um desses seres sem modos:
- O que tu faz da vida hein? Interpelava a mulherinha tôsca a minha frente. Permaneci alguns segundos calado olhando para ela. Imune a qualquer medida de ridículo ela fez nova carga formulando nova questão:
- Tu não vai mais pra Porto Alegre?
Novamente fiz uma pausa prolongada, controlei meu ímpeto de mandá-la á merda, disse-lhe duas ou três palavras e me despedi. Gente como aquela mulher estúpida acotovela-se nos batentes dos muros nos bairros da periferia e mede a felicidade pelo poder aquisitivo, ou o potencial de adquiri-lo. Possuem uma escala muito peculiar de avaliação onde cada objeto de consumo, obtém pela sua ordem de importância nessa escala, muita vez subjetiva, um número determinado de pontos a favor. Eletrodomésticos, carros, casas, viagens, financiamentos... Tudo conta pontos. E são considerados por essas pessoas pré-requisitos para a felicidade.
Sabedoras da assunção de beltrano ou cicrano a um cargo público via concurso, tratam de espalhar alvíssaras. Se os referidos forem militares recém ingressos no baixo oficialato, ou mesmo sentarem praça como subalternos, as futriqueiras propagarão notícias de bom alvitre decretando aos "felizardos" fama e sucesso. Feito isso, logo tratarão de especular a condição civil dos supracitados. Caso sejam solteiros, não lhes faltaram moçoilas casadoiras pretendentes.
E a vida seguirá seu curso no vai-da-valsa até o fim...