Casa d'Aldeia é a casa original, a mais antiga habitação de minha cidade natal Cachoeira do Sul. Habitação, que, igual a cidade, apesar de tantos golpes de vento e borrascas sazonais teima em manter ao menos duas paredes de pé. Casa d'Aldeia é a minha casa. Seja bem vindo a ela!
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5 de dez de 2010

RONHAS & CAMBALACHOS

Vi muitos filmes, de todo gênero, de todas as épocas e eras cinematográficas, desde a pré-história - tempos do cinema mudo, até a animação virtual que independe da intervenção humana... O dramas humanos são sempre os mesmos, não mudam, sempre os mesmos. Os mesmos assuntos, as mesmas pendengas, celeumas, as mesmas discussões e conflito. Entre homem e mulher a pataquada é sempre a mesma. Ainda não inventamos alguma coisa nova, é sempre a mesma, com poucas variações sobre o mesmo "tema"... Assistir uma discussão entre um casal sem participar dela; ouvi-la passivamente, é estranho, todavia revelador - sumamente revelador. Ouvem-se os tons das vozes, percebe-se as tensões demonstradas pela impostação vocal. Uma ou outra nota mais aguda, mais grave, as timbragens modulando conforme a intenção do interlocutor. O acúmulo de tensão, num crescente, até atingir um ápice que deflagre uma reação - e essa, pode ser de cunho físico, agressiva.Um fala mais, sobrepuja o outro em argumento. A mulher evoca mais fatos,tem uma reserva enorme de argumentos, o homem fala pouco, na verdade não deseja estar ali.Ela desbragada, sob a aparência coerente de um discurso verborrágico. Sem razoabilidade. Ele paralisado, num ouviu metade do que ela disse. Os seres humanos não são reconhecidamente bons em matéria de razoabilidade. Pouco adiantou aparecerem dentre os homens gigantes do intelecto do çorte de um Descartes, um Diderot, um Shakespeare um Freud, um Marx: tanto o Carl quanto o Grouxo... Continuamos os mesmos, descomissionando todo bom senso. Abafando a temperança. Aniquilando a calma. Implodindo a paciência. Dinamitando a concórdia... Porque ninguém mais tem saco pra consertar as merdas que faz aos outros e a si mesmo. Pena, não é mesmo? Mas, pensando bem, até que não acho que seja tão ruim assim...

METAMORPHOSIS





Não seria verdadeiro, mas temerário afirmar que, se comparado ao estilo consagrado pela turma de sambistas do morro do Estácio no Rio de Janeiro, nosso samba regional soa tão distintamente a ponto de representar  uma espécie de fóssil musical. Algo que não evoluísse e se adaptasse ao movimento perpétuo dos padrões de estilo de época estaria simplesmente fadado ao desaparecimento. Nosso Samba regional, ainda que tardiamente, também sofreu influências e modificações implantadas por músicos profissionais versados em teoria musical, que, igualmente adeptos ás modas, lundus, marchas, polcas, maxixes e choros, incorporaram a nossa batucada uma maneira  nova de execução. Disciplinando, e talvez suavizando sua rudeza original. Entretanto isso não se mostrou o suficiente para descaracterizá-la por completo, e nosso Samba se manteve próximo ao que era, soando similar á antiga batucada do Quicumbi.
Conquanto os salões particulares e dos clubes sociais cachoeirenses, por ocasião de seus festejos (fosse ou não carnaval) ofertassem aos convivas um repertório musical baseado em polcas, valsas e operetas, executadas a esmero pelas bandas locais, é curioso especular em que ocasiões, e de sob qual acompanhamento musical as camadas menos favorecidas da sociedade celebravam.
Em 1910 o samba e o choro já eram populares em Cachoeira junto às camadas mais pobres da população. Junto deles o maxixe, o lundu, a marchinha e a onipresente modinha.
Em casa de gente humilde, nos terreiros da periferia, o Samba, naquela época bastante influenciado pelo batuque do Quicumbi era presença constante. Qualquer ocasião era pretexto para uma roda de samba.
Ainda que os jornais da época deem conta de enorme repressão exercida pela classe dominante, via aparelho policial, sobre essas reuniões quando ocorriam em lugares próximos ao centro da cidade. Certo é que os enfezados "festeiros" não se intimidavam ante a desdita quase certa: irem dormir no xilindró. Conduzidos até lá debaixo de pancada. Assim sendo a fuzarca estava garantida. Fosse onde fosse. Nas ruas centrais de Cachoeira ou nos terrenos ermos e chãos dos arrabaldes como o Jacaré no fim da Rua Félix da Cunha. Na Coxilha do Fogo, então somente um campo de invernada com pastagem para o gado, ou na zona norte da cidade da Cachoeira, nas grotas da antiga Fazenda Tibiriçá. Cujos proprietários escravistas, para se gabarem de generosos talvez, decidiram doar parte de uma área - imprestável para compor pastagem pela quantidade de pedras à flor do solo, e, pelo íngreme terreno, onde seus ex cativos puderam erguer seus mocambos
Lá vibravam até o amanhecer o Tibitibi, o Canguenguera (tambores do Quicumbi), junto às gaitas - cromáticas na maioria das vezes; violões e rabecas. Preparando a volta do Quicumbi á avenida de onde se viu sacado com a chegada do imigrante europeu. Para voltar com outra roupagem. Transfigurado no Samba. Samba de sotaque regional que embalou a periferia em sua retomada das ruas por volta de 1928. Quando o Carnaval assumiu os contornos de verdadeira festa popular em Cachoeira.

3 de dez de 2010

RATO NO TUBO

No SBT do Silvio Santos tem um programete pra crianças, passam desenhos bacanas, as crianças telefonam concorrem a brindes muito bons: playstation III, psp, carrinhos de controle remoto, computadores, bicicletas, celulares... Uma beleza. Queria mesmo ligar. Fico com vergonha do Yudi, nome do apresentador pré adolescente ou da sua colega Priscila perguntarem, perguntinhas de praxe: - Quem tá falando?

Eu, tentando disfarçar a voz, pensando em parecer mais jovem. Coisa impossível pra quem conhece minha voz abaritonada e alta: - É Alexandre.
- Cê fala de onde Alexandre?

Eu: - To falando do Rio de Janeiro, mas sou Sul Rio-Grandense...
- Ah, beleza! Diz Yudi meio desconcertado... Você costuma assistir o programa? Quantos anos cê tem?

Eu: - Costumo sim! Tenho 45 anos, por quê? Tem algum problema em um cara adulto, um cara maduro, ficr olhando desenho na televisão e ligar pra tentar a sorte no Rato no Tubo?

- Ah, não. Legal. Nada a ver, tudo bem... desconfortáveis... é que ninguém nunca ligou, a gente estranha. Bem o Alexandre, cê conhece a prova do Rato no Tubo?

Eu, num guentando mais: - Conheço. Conheço desde que me conheço por gente. E tem muito rato dentro desse tubo, cuidado! Tu podes agora mesmo estar te metamorfoseando em rato. Cuidado com os tubos, catódicos ou não catódicos. Vocês sabem o que é um tubo catódico?? De raios catódicos?

Eles: - Hã??? Num sei não...
Eu: - É o primeiro efeito...
Eles: - Que efeito Alexandre?
Eu: - Da metamorfose em rato.
Eles: - Por quê?
Eu: - Os ratos desistem de aprender coisas que não se refiram à comida, e às trilhas de migalhas.
Eles: - Ahhh! Entediados... Mas Alexandre! Você já escolheu o rato??
Eu: - Não, não escolhi nenhum rato não. Não quero nenhum rato. Prefiro felinos, os gatos são grandes auxiliares dos homens historicamente. No Egito antigo havia uma deusa gato: Bastit. Sem os gatos os egípcios não conseguiriam manter estoque de cereais por conta do ratos. Talvez por isso a biblia relate um perído de fome no Egito antigo no tempo de Ramsés.
Eles chateados: - Alexandre, infelizmente acabou seu tempo... Tchau, tchau.

Por isso eu não ligo pro programa Bom Dia & Cia. Justamente por conta de que meu tempo acabou há alguns bons anos...

1 de dez de 2010

ZONA DE CONFORTO

Olho, observo - eu to ligado, to sim... "O morro não tem vez/e o que ele fez/já foi demais..//" Escreveu  "São Tom Jobim". Todavia, parece que chegou a vez do morro... Duzentos anos depois das ocupações & aquilombamentos irregulares, desde o tempo que se transportavam dejetos em pipas imensas pra despejar na Baía da Guanabara - certo, mudou um pouco o panorama, os emissários marítimos despejam toneladas de bosta por segundo bem lonje da praia... Será? Bueno... A zona de conforto de todo bom burguês começa pela sociedade cordeira. Reparem. O trocadilho é infame, cordeira ao invés de ordeira. Ordeira toda sociedade deve ser mas, cordeira é uma faceta que não me agrada. A uma sociedade cordeira prefiro a desordem mesmo. Não o crime, mas a desordem & desobediência. Ninguém aguenta o repuxo?? Se cagam de medo, né? O medo é uma coisa estranha. Conheço o medo. Quando preteia o olho da gateada e o sujeito ameaça se afrouxar, depois vira um leão e se arroja sem plano pra cima da ameaça. Por isso o medo é perigoso. Ele contempla erros de avaliação.
Pois bem, a zona confortável para o asfalto que depende da alegria em pó e da marijuana como combustível do "jet set nacionar" é saber que os powerful, os mighty, forceful and outros adjetivos na língua romanche de Shakespeare choram a derrocada dos "alemão". Acovardados. Chinelões & fuleiros "alemães" propiciando ao vivo cenas de absoluto ridículo. Perdendo chinelinhos e pés de tênis em disparada pelas estradinhas de terra. Encagaçados...
Que aprendam a lição. Mesmo a sociedade criminosa se não prevê a ordem, a disciplina férrea, não sobrevive. Porque tal disciplina implica na aquisição de cultura diversa. Vide a Arte da Guerra de Sun Tzu, as memórias de Júlio César, Alexandre Magno, Xenofonte, Patton, Bradley, Mao... Sem sabedoria não há nada além de um vazio estranho e límbico, onde nem mesmo a desordem pode se instalar sem planejamento, "sem base" como diz sabiamente Marianna Blanc. Sem nenhuma perspectiva de verdadeira revolução.