Casa d'Aldeia é a casa original, a mais antiga habitação de minha cidade natal Cachoeira do Sul. Habitação, que, igual a cidade, apesar de tantos golpes de vento e borrascas sazonais teima em manter ao menos duas paredes de pé. Casa d'Aldeia é a minha casa. Seja bem vindo a ela!
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4 de ago. de 2008

Secos & Molhados Parte I

Nos idos de setenta o velho Antonio Rodrigues , apelidado "Catimbau", estava cansado do ofício de vendeiro. Padrinho de minha mãe, Catimbau era um pernóstico. Vendeu o armazém bem sortido para um simplório, o bonachão Aldomiro, e, devido ao hábito de vender fiado Aldomiro em pouco tempo foi à bancarrota.
Catimbau, ou "pai velho" como eu o chamava, apreciava alguns seriados de tevê da época. Eu assistia com ele as atrações vespertinas na tevê gaúcha pela tela P&B do novíssimo televisor Telefunken. Tom Mix, Django, Os Patrulheiros, Rin Tin Tin e Viagem ao Fundo do Mar. Contudo, para minha infelicidade pai velho abominava comédias. Por isso quando as chamadas anunciavam Batman, Perdidos no espaço ou I Love Lucy como próximas atrações ele desligava a tevê.
Porém a maior paixão na vida de Antoninho Catimbau não eram os ingênuos seriados da época ou as extrações da loteria federal conferidas duas vezes ao dia de segunda a sábado às 14 e às 18 horas. Conforme permitisse a sinfonia de ruídos da estática nos alto-falantes do enorme rádio de mesa valvulado marca Telefunken - como a tevê. Posto sobre uma pequena cômoda entre as camas no quarto do casal. (Catimbau e a mulher Candoca dormiam há muitos anos em camas separadas). Então, como dizia sua maior obsessão não eram os seriados nem a loteria, mas o vício do carteado. Um jogo em particular: o pif-paf. Vez ou outra reunia alguns amigos, gente da redondeza, desocupados ou aposentados como ele e o joguinho a dinheiro (coisa micha pros velhinhos não suarem) se armava no amplo galpão nos fundos do terreno junto ao imenso e variado pomar. Pomar frequantado por mim com verdadeiro entusiamo e obstinação. De tanto gosto pelo pif-paf Catimbau, às vezes jogava sózinho. Quando lhe perguntavam com quem jogava, respondia bravo: "-Com o diabo!" Para escândalo da mulher, dona Candoca cujo nome era Enedina. Católica ortodoxa e beata, ao ouvir tal coisa se persignava, enquanto certamente lhe passava um calafrio...
A grande casa de alvenaria de frente para a avenida Bento Gonçalves tinha na parte contígua à calçada a peça onde funcionava o armazém. Esse cômdo foi posteriormente alugado e virou uma relojoaria. Por um profundo corredor lateral se chegava até a porta da sala da casa de pai velho. E, mais adiante até a janela da cozinha onde ele estabeleceu sua modesta "tenda". Mesmo tendo vendido o bolicho e se aposentado Catimbau continuou seus biscates. Anotando jogo de bicho e vendendo cigarros. Pela janela da cozinha ele alcançava suas mercadorias à clientela. O dinheiro era posto numa frasqueira de couro preto, posta sobre um aparador baixo ao lado da geladeira marca Figidaire... De confiança na casa muitas vezes fiz o troco para os fregueses de pai velho... Vez ou outra ganhava umas moedas e me3 sentia muito bem pago.

2 de ago. de 2008

Dia de Todos os Santos

O filósofo, arqueiro, espadachim, dublê de escritor & macumbeiro "soft" Paulo Coelho llança mais um "missil literário - ou quase": "O Vencedor está só". Duzentos mil exemplares vendidos na arrancada. ETA NÓIS! Quase simultaneamente o jornalista Fernando Morais anuncia o lançamento da biografia de Paulo Coelho, livro intitulado de maneira bastante apropriada: "O Mago"... Paulo Coelho como pessoa pode até ser boa gente, um sujeito que me parece tímido, introvertido às vezes. Mas, quando se investe da persona do escritor a coisa toda degringola. Não sou leitor assíduo de Paulo Coelho, porém já li, à guisa de curiosidade O alquimista e Brida. E No único comentário possível sobre sua escrita é o seguinte: Uma literatura infantilóide, fraca quanto à criatividade. Uma escrita pavorosa, repleta de lugares comuns, colofões, sem falar nos adágios e provérbios reciclados. Temática mesmeira. Enfim, péssima. Por que vende tanto? Ora justamente por isso. Não é bagulho a coisa que mais se vende no mundo hoje em dia? Não é bagulho o produto que intoxica e rapidamente provoca dependência no usuário? Ninguém quer pensar - pensar cansa. Os burros morrem pensando, não dormindo.
(...) Mudando radicalmente de assunto. Quero informar a quem por acaso não saiba que ontem dia primeiro de agosto foi comemorado (por aqueles que conservam a tradição) o dia do MARACATU. O MARACATU se trata de uma dança dramática de origem afro-brasileira hoje sobrevivente nas tradições folclóricas de Pernambuco que remonta aos idos do século XVIII. Suas raízes, entretanto estão fincadas muito mais profundamente. O MARACATU segundo folcloristas como Mello Morais e Arthur Ramos originou-se de uma dança dramática muito mais antiga: O CUCUMBI ( a palavra Cucumbi vem do dialeto quimbundo e significa, festa da puberdade; sua origem é dada igualmente como vinda de "cucumbre": comida de preto). Essa dança dramática que originou o Maracatu e outras manifestações de natureza semelhante foi registrada por primeira vez na Bahia ainda no século XVI. Para aqueles curiosos que desejem se aprofundar no assunto eu recomendo a leitura dos seguiintes autores e suas respectivas obras: Flausino Rodrigues Vale - Elementos do Folclore brasileiro; Mario de Andrade - Danças Dramáticas do Brasil, tomos I, II e III. Coletânea organizada por sua ex-aluna também pesquisadora Oneyda Alvarenga; Arthur Ramos - O folclore Negro do Brasil ; Luis da Câmara Cascudo - Antologia do Folclore Brasileiro. Esses são apenas alguns dos autores e livros que podem servir para aprofundar os conhecimentos dos interessados pelo assunto. Ah! E antes de finalizar quero agradecer aos amigos Lima Trindade (escritor brasiliense radicado em Salvador) pela pesquisa realizada a meu pedido e ao compositor e professor de história camarada Giovanni Mesquita pela gentileza de mo ter emprestado valiosos livros. Não nos esqueçamos jamais da máxima de Voltaire: "Excistem dois tipos de idiotas: Os que emprestam livros, e os que os devolvem". Camarada Giovanni, calma, por favor, pois pertenço ao segundo tipo. (...)Té mais.