Casa d'Aldeia é a casa original, a mais antiga habitação de minha cidade natal Cachoeira do Sul. Habitação, que, igual a cidade, apesar de tantos golpes de vento e borrascas sazonais teima em manter ao menos duas paredes de pé. Casa d'Aldeia é a minha casa. Seja bem vindo a ela!
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12 de abr. de 2019

MEMÓRIAS DE MINHA MÃE


MEMÓRIAS DE MINHA MÃE

Minha mãe Marta, certo dia me contou:
“ - Foi depois da guerra, em 1947.  Nos fundos do asilo, era o nosso colégio. Dona Rosinha, a Carmem e a Sibila eram as professoras. Havia minha colega Nair, o Ivo e a Leda... Mas, nós não gostávamos da aula, queríamos era brincar com uma velhinha destrambelhada que tocava gaitinha de botão e cantava. A Periquita, assim a chamávamos. Tinham construído um balanço pra ela e nós dávamos pedaços de bolo e balas pra que ela cantasse versos pra nós. Periquita morava no asilo... Às vezes ela estava triste, chorava, não contava pra nós o porquê.”
Minha mãe também estudou em uma escola municipal que funcionava na casa que serve de base para os fiscais municipais de trânsito junto à Praça Borges de Medeiros na Rua Júlio de Castilhos. A chamada Praça da Caixa d’Água. Pois ali frequentavam o terceiro ou quarto colegial ela e seus colegas Nair e Ivo Schmidt. Coisa é que a Praça Borges de Medeiros abrigava já na época um edifício de um andar construído em 1924 em estilo neoclássico. Essa construção, seguindo padrões arquitetônicos franceses foi erigida para abrigar o parque de bombas centrífugas responsáveis pela pressão da água bombeada desde a parte baixa da cidade, onde se localiza a estação de tratamento, até a parte alta da cidade. Pois. entre os pilares dessa construção que possui um terraço verde, minha mãe  sua inseparável  amiga Nair e seu amiguinho Ivo se escondiam. O intuito deles não era outro que não o de espiar sua professora dona Carmem foder em pé com um engenheiro francês que periodicamente vinha verificar os reparos e melhoramentos nas bombas instaladas. Aproveitando pra desentupir o encanamento da professorinha.
Eis que no verão de 1948 um grande circo ocupou o espaço  então vasto da praça Borges de Medeiros. Lá se instalou com suas lonas coloridas, bandeirolas, flâmulas & bandeiras. Havia jaulas de animais exóticos. Macacos chimpanzés, leões, tigres, etc. Um enorme elefante asiático permanecia amarrado pelo pé a uma corrente, próximo a lona principal... Minha mãe e seus amigos inseparáveis no ímpeto dos dez anos todo dia iam olhar os bichos, o circo, e se compadeciam de ver os animais presos. Naturalistas precoces e involuntários, adeptos – mesmo sem o saber da causa ecológica, resolveram certa tarde, depois da aula, abrir as jaulas e dar fuga aos animais. Assim fizeram... E por primeira vez o pandemônio se instalou pelas ruas da diminuta cidade. Nossos heróis, entre medrados e satisfeitos evadiram-se sem um único arranhão, enquanto bombeiros, policiais, funcionários do circo e os munícipes mais corajosos tratavam de recapturar os recém-libertos. Se conseguiram? Até ontem ninguém sabia dizer ao certo.

10 de abr. de 2019

ALTÍSSIMA AUTOESTIMA
Ilustração Original - Alexandre Florez

O Fantasma de Antoninho









[...] a velha beata Candoca (dona Enedina Pureza Rodrigues) dava dinheiro, às escondidas do marido, ao filho Antoninho. Antoninho era um andrajo. Esmolambado, batido, surrado... Curvado sob um peso invisível aquela criatura fora escorraçada pelo pai Antônio, o Catimbau. Dono de armazém, padrinho de minha mãe.

Vez ou outra, Antoninho, aquela figura melíflua vinha de Porto Alegre. Amarfanhado, encolhido, as mãos trêmulas, soturno, medrado. Rastejante na sua condição de homem humilhado pela ignorância gnóstica cristã contra o homossexual. Assim se apresentava Antoninho, vergado sob seu fardo, a fronte voltada para o chão.

Eram os anos setenta. Tenho lembrança da figura alta, ossuda, de cabelos e olhos claros e ralo cavanhaque. Recordo seus trajes um ou dois números maiores, desconjunto, e seus tiques neurastênicos: A voz hesitante num fio, cacofônica. O olhar irrequieto e miúdo. Temeroso como o de um cão enjeitado e faminto. Suportando quase indiferente já um passa fora atrás do outro. Um famélico cão cujo orgulho dissipou-se no éter porque entre os sem eira nem beira não há nenhuma esperança. Nem sobeja a menor das alegrias a não ser a cachaça.  Vivem de restos. Do despejo alheio. Das sobras, de remendos, de memórias que pertencem a outros, alheios a partilhar qualquer coisa consigo...

Na dureza altiva e límpida dos meus sete anos pouco se me importava à sorte de Antoninho. Seus dissabores. Nos meus heroicos sete anos queria saber das goiabas, bergamotas, nêsperas e maçãs do grande pomar na casa do Catimbau... Porém, hoje, nesta manhã chovediça e fria, devoto um pensamento a esse fantasma que o tempo consumiu. Sem, no entanto, fazer com que eu o esquecesse. E, pelo cristalino dos olhos de uma criança, de um menino de sete anos, o tímido Antoninho vem espiar mais uma vez este mundo. Talvez agora esteja ele menos assustado; quem sabe? Talvez agora finalmente esteja em paz!

26 de ago. de 2016


A MENTIRA NEOLIBERAL  


Em 2008 o mundo entrou – e ainda não saiu, da maior crise econômica desde a instauração global de uma economia baseada no assim chamado LIVRE MERCADO. Que de livre não tem absolutamente nada, já que os países compradores e vendedores, mantem uma interdependência total. Ou seja: o que afeta um reflete nos demais. Basta que se derrube a primeira peça do dominó e o efeito cascata é global. Assim posto, em 2008, esquecendo uma antiga e sábia regra em vigor nos EUA desde sua declaração de independência em 1776; ignorando os conselhos de Thomas Jeferson, George Washington e Benjamim Franklin o congresso dos EUA (maior mercado comprador do mundo) autorizou aos bancos que emprestassem seu excedente de reservas com largos prazos de carência juros baixos e igualmente longo período para quitação dos empréstimos. Destinados principalmente ao setor imobiliário. Assim, um cidadão estadunidense médio assalariado, teria acesso a um imóvel cuja hipoteca demandaria o pagamento em 30 anos. E só começaria a ser paga dentro de 5 anos. Uma pechincha. Tudo isso sob a promessa de que os juros se manteriam baixos. Porém, ai porém, o que ocorreu a partir da autorização de empréstimos e financiamentos desregrados foi uma balbúrdia desenfreada. Os pequenos e médios bancos sedentos por liquidez, isto é dinheiro vivo em caixa, começaram a renegociar essas hipotecas – promessas de dívida, entre si. E a ciranda não se ateve apenas aos pequenos. Todo sistema financeiro dos EUA entrou nessa jogada. Então meus amigos, ao fim dos tais cinco anos de carência as peças do dominó começaram a ruir. Endividados pela suba dos juros – acarretada pela crescente valorização dos papéis negociados e renegociados “por fora” entre os bancos. Os mutuários não conseguiam honrar as prestações e simplesmente desistiam da compra. Direito assistido pela lei dos EUA. Resultado: 16 TRILHÕES DE DÓLARES DE ROMBO! Quem cobriu? Quem impediu que o sistema FINACEIRO DOS EUA FALISSE levando consigo toda a economia mundial e o dinheiro suado dos pequenos poupadores??? O TIO SAM. Isso mesmo. O governo do Estados Unidos na base do canetaço se endividou e quitou a dívida para que a coisa toda não se transformasse em um evento pior do que o armagedon. A Chrysler foi estatizada. Muitos bancos de porte como Chase Manhattan, etc. pertencem em grande parte hoje ao governo do TIO SAM. A Europa que vive crise semelhante não pode se safar. Afinal o Euro não tem a mesma fluidez do dólar. Não é moeda de troca corrente internacional. O Brasil de Lula na época safou-se bonito da crise porque aqueceu a economia interna. Reduziu juros, fomentou o crédito. A China (o maior exportador do planeta) que crescia assombrosas taxas de 12 por cento ao ano se planejou rapidamente: passou a crescer 6,5 por cento. O que para nossos padrões ora negativos é uma Babilônia... Mas, a pergunta é cadê o papo furado do livre mercado. Da iniciativa privada. Do não socorro estatal ao capital privado. Do estado enxuto, menor, neoliberal??? PAPO FURADO!

12 de dez. de 2014







 




AD LIBITUM

- Ave César! Saudou o escriba ao adentrar o scriptorium do palácio, de pronto tomando assento. Em mãos o belo tríptico de marfim cuja face encerada estava pronta para, ao toque do stilus, registrar as palavras do imperador. Adriano estava distraído na leitura de um pergaminho grego, soergueu os olhos de sobre o pergaminho, largou-o sobre a mesa. Coçou a cabeça raspada à moda dos gladiadores. Sorriu gentilmente para o jovem Timeu seu mordomo e secretário.
- Gostaria de rever a Ibéria! Disse o imperador.
- Ah, sim a Ibéria! Repetiu o jovem... César, a pax romana foi instaurada na Germânia. São Boas novas. Proferiu o jovem escriba com certo entusiasmo.
- Os campos ondulados da Ibéria... Nasci na Galícia, próximo à fronteira da Lusitânia. Divagava Adriano.
- César! Agora a Germânia se põe a serviço do império.
- Sim meu caro Timeu. Não estamos todos a serviço do império? Antes de Roma a Gália, Ibéria, Lusitânia, Líria, Trácia, Dalmácia, Germânia... Não eram além de territórios bárbaros. Povos hostis, ameaças potenciais a Roma. Agora são parte do império. Que proveitos tiram disso?
- Bem, acredito termos levado civilização a eles.
- Civilização? Civilização... Ora, a Grécia era civilizada e culta enquanto os latinos viviam de comer as sobras da antiga Etrúria. O Egito floresceu no tempo em que deuses viviam entre os mortais. Babilônios, Assírios e Hebreus contam mais tempo em sua história que todos os estados sob domínio romano e mesmo o próprio Egito... Civilização. Repetia Adriano. Uma palavra cara meu amigo e de significado ambíguo. Olha a teu redor. Vê todos esses trastes, adornos de nossa vaidade. Isso traduz a civilização? Moeda sonante, poder, influência. Resultantes da civilização. Quando Roma instaurou a pax romana entre os bárbaros seu intuito foi à salvaguarda de suas fronteiras. Em troca da submissão levamos aos bárbaros um pouco de luz: escrita, filosofia, arte e um sem número de práticas execráveis. Em troca lhes exigimos ouro, trigo, braços para o trabalho. Homens para as fileiras das coortes e legiões. Sacrifícios em troca de frivolidades; exigimos-lhes essas pagas. Tudo porque Roma, viciosa, decadente, não pode prescindir ao luxo. ...Um homem pode sobreviver sendo um completo imbecil. Não é necessário que saiba escrever, tampouco compor música. Todavia nenhum homem sobrevive sem pão.

28 de nov. de 2014



O DESANIVERSÁRIO



Os “desaniversários” são etapas quase transcendentes na vida de uma pessoa. Quando exatamente começam é variável. As mulheres por uma questão estratégica, ou logística, principiam a conjugar o verbo “desaniversariar” muito mais cedo. Aos 30, 31, quando geralmente irrompem os primeiros fios brancos em suas madeixas. Um pouco mais tarde talvez, pelos 34 quando se encontram na fase da vida feminina tipificada por Honoré de Balzac, e, tendo por isso ganhado a alcunha de “balzaquianas”. Momento em que as rugas dão o ar de sua graça para desgosto das mulheres. O que absolutamente não lhes tira o viço. “Au contraire!” Como diria o escritor francês supracitado. Empresta-lhes um que esplendor, de vivencia, de sagacidade. Porém, as mulheres não se convencem facilmente disso. E um arsenal cosmético se lhes acorre prometendo recompor um tônus epitelial adolescente. Coisa que não será jamais verdade... Ah, os desaniversários. Motivação para eles não nos falta. A ampulheta do tempo escoa-se num único sentido. Sempre em frente, incessante. Mas, como dizia, todas as pessoas, homens e mulheres, n’algum momento principiam a praticar a “arte do desaniversário”. No caso dos homens, também a vaidade, estranha e maneirista compulsão que lhes acomete, impele aos xirús velhos a certa altura da vida, recorrer “ao truque” para melhorar sua aparência. E, diferente das mulheres experientes no uso das “armas” cosméticas meus congêneres tendem ao exagero senão pelo excesso, pelo despropósito. Assim velhos senhores com perucas mal ajambradas e maquiagem desfilam tranquilamente a luz do sol, crentes de que estão ostentando uma “leve” maquiagem corretiva, próximo, muito próximo ao que seria natural. E sobre qual fator recai a culpa desse pecadilho maneiroso do dandi candidato a “Beau Geste”? Sobre o danado do DESANIVERSÁRIO. Porque meus congêneres ao chegar das neves na barba, ao encurtar das vistas, ao sofrear dos ímpetos se põem alertas como cusco de guarda. E essas coisas, esses sinais da intempérie “sic transit” – da vida passageira, nos vêem cedo, muito cedo às vezes. Eu mesmo, aos trinta já possuía grisalhos na barba hirsuta, característica semita da descendência misturada. Então, o desaniversário começa na flor da idade. E qual seria essa idade? Talvez a idade presumida. Ou a acreditada. Ou ainda a idade sentida, na esperança de que os dias se alonguem. Porém, o alongar-se dos dias por si mesmos e para si mesmo que sentido tem? Nenhum, respondo assim sem titubeio. Porque o tempo é justo somente na ação decorrida em prol do outro. Existo porque o outro existe, a essa troca interpessoal os filósofos apelidaram “alteridade”. Existo para experimentar a vida e amar minha companheira. Existo para amar minha família e meus amigos. Existo para servi-los, para dividir com todos esses o fardo inóspito, acre, difícil de procurar respostas para tudo. Para o tanto enorme do que eu não sei. Assim, meus desaniversários começaram a contar a partir de hoje. Não desejo me perder em demora, chegar  mais e mais dentro do tempo e mais fundo. Quando o peso da jornada se fará penoso, difícil, trágico quiçá. Não desejo persistir “ad eternum” na ânsia mui egoísta de desejar viver quando esse viver – do modo costumeiro e conhecido, já não for minimamente proveitoso a ninguém e não sirva para mais nada. Não. Desejo apenas a justa medida. Bem pesada e recalcada. Tempo bastante para abraçar a vida, conhece-la um tanto. Desassombrar-me e partir dela sem deixar nenhum rastro que não essas migalhas que se tem por lembranças e por saudade.

24 de nov. de 2014

 Dia dos Pais



Todo pai é orgulhoso de seus filhos. Ainda mais orgulhoso quando ve que são prestigiados pelos amigos. Valorizados e queridos. Pois ontem recebi de José Daher o mp3 de minha composição Ana Rosa gravada no CD Terreiros Gaúchos Amores Flutuantes da intérprete e compositora Gisele Rodrigues. Com direção musical do amigo Henri Lentino. Gostei muito do arranjo jazzístico e da interpretação de Gisele. Como disse, todo pai é orgulhoso de seus filhos e essa composição é mais uma que entra pra lista dos meus "filhos" prestigiados por intérpretes. Obrigado Henri Lentino, e Gisele Rodrigues, pela confiança no meu trabalho... 

O Link contem a gravação da música Ana Rosa. Composta por Alexandre Florez. Gravada em seu primeiro CD, Caminho dos Engenhos de 2004. Regravada por Gisele Rodrigues em 2014 no seu CD Amores Gaúchos Terreiros Flutuantes.
 
https://soundcloud.com/845938047u/06-ana-rosa

20 de nov. de 2014

A VENDA DE INDULGÊNCIAS, OU: CADA PECADO TEM SEU PREÇO:


A pequena lista foi publicada por volta de 1513. Durante o papado de Leão XIII. Sim, a resumida lista com poucos itens abaixo é parte de um rol muito mais extenso. Nesse codex, nesse “libratum” estão discriminados por ordem de grau e importância, os valores os preços e taxas a serem pagos pelos clérigos à sé católica romana – representante do cristianismo no ocidente, a título de eximir-se de culpa e pecado. Não muito diferente do que hoje praticam os cultos neo pentecostais. E, mesmo em alguns casos a igreja católica romana. Ou seja, é uma putaria dos diabos:
1. O eclesiástico que incorrer em pecado carnal, seja com freiras, primas, sobrinhas, afilhadas ou, enfim, com outra mulher qualquer, será absolvido mediante o pagamento de 67 libras e 12 soldos.
2. Se o Eclesiástico, além do pecado de fornicação, pedir para ser absolvido do pecado contra a natureza ou bestialidade, deverá pagar 219 libras e 15 soldos. Mas tiver cometido pecado contra a natureza com crianças ou animais, e não com uma mulher, pagará apenas 131 libras e 15 soldos.
3. O Sacerdote que deflorar uma virgem pagará 2 libras e 8 soldos.
4. A Religiosa que quiser ser abadessa após ter se entregado a um ou mais homens simultaneamente ou sucessivamente, dentro ou fora do convento, pagará 131 libras e 15 soldos.
5. Os sacerdotes que quiserem viver em concubinato com seus parentes pagarão 76 libras e 1 soldo.
6. Para cada pecado de luxúria cometido por um leigo, a absolvição custará 27 libras e 1 soldo.
7. A mulher adúltera que pedir a absolvição para se ver livre de qualquer processo e ser dispensada para continuar com a relação ilícita pagará ao Papa 87 libras e e 3 soldos. Em um caso análogo, o marido pagará o mesmo montante; se tiverem cometido incesto com o próprio filho, acrescentar-se-ão 6 libras pela consciência.
8. A absolvição e a certeza de não ser perseguido por crime de roubo, furto ou incêndio custarão ao culpado 131 libras e 7 soldos.
9. A absolvição de homicídio simples cometido contra a pessoa de um leigo custará 15 libras, 4 soldos e 3 denários.
10. Se o assassino tiver matado dois ou mais homens em um único dia, pagará como se tivesse assassinado um só.


Para saber mais:  http://pt.wikipedia.org/wiki/Com%C3%A9rcio_de_indulg%C3%AAncias
Fonte da Imagem: http://www.paraclitus.com.br/wp-content/gallery/fotos-falsa-doutrina/luther-vor-cajetan.jpg

23 de jun. de 2014



O DESANIVERSÁRIO

Os “desaniversários” são etapas quase transcendentes na vida de uma pessoa. Quando exatamente começam é variável. As mulheres por uma questão estratégica, ou logística, principiam a conjugar o verbo “desaniversariar” muito mais cedo. Aos 30, 31, quando geralmente irrompem os primeiros fios brancos em suas madeixas. Um pouco mais tarde talvez, pelos 34 quando se encontram na fase da vida feminina tipificada por Honoré de Balzac, e, tendo por isso ganhado a alcunha de “balzaquianas”. Momento em que as rugas dão o ar de sua graça para desgosto das mulheres. O que absolutamente não lhes tira o viço. “Au contraire!” Como diria o escritor francês supracitado. Empresta-lhes um que esplendor, de vivencia, de sagacidade. Porém, as mulheres não se convencem facilmente disso. E um arsenal cosmético se lhes acorre prometendo recompor um tônus epitelial adolescente. Coisa que não será jamais verdade... Ah, os desaniversários. Motivação para eles não nos falta. A ampulheta do tempo escoa-se num único sentido. Sempre em frente, incessante. Mas, como dizia, todas as pessoas, homens e mulheres, n’algum momento principiam a praticar a “arte do desaniversário”. No caso dos homens, também a vaidade, estranha e maneirista compulsão que lhes acomete, impele aos xirús velhos a certa altura da vida, recorrer “ao truque” para melhorar sua aparência. E, diferente das mulheres experientes no uso das “armas” cosméticas meus congêneres tendem ao exagero senão pelo excesso, pelo despropósito. Assim velhos senhores com perucas mal ajambradas e maquiagem desfilam tranquilamente a luz do sol, crentes de que estão ostentando uma “leve” maquiagem corretiva, próximo, muito próximo ao que seria natural. E sobre qual fator recai a culpa desse pecadilho maneiroso do dandi candidato a “Beau Geste”? Sobre o danado do DESANIVERSÁRIO. Porque meus congêneres ao chegar das neves na barba, ao encurtar das vistas, ao sofrear dos ímpetos se põem alertas como cusco de guarda. E essas coisas, esses sinais da intempérie “sic transit” – da vida passageira, nos vêem cedo, muito cedo às vezes. Eu mesmo, aos trinta já possuía grisalhos na barba hirsuta, característica semita da descendência misturada. Então, o desaniversário começa na flor da idade. E qual seria essa idade? Talvez a idade presumida. Ou a acreditada. Ou ainda a idade sentida, na esperança de que os dias se alonguem. Porém, o alongar-se dos dias por si mesmos e para si mesmo que sentido tem? Nenhum, respondo assim sem titubeio. Porque o tempo é justo somente na ação decorrida em prol do outro. Existo porque o outro existe, a essa troca interpessoal os filósofos apelidaram “alteridade”. Existo para experimentar a vida e amar minha companheira. Existo para amar minha família e meus amigos. Existo para servi-los, para dividir com todos esses o fardo inóspito, acre, difícil de procurar respostas para tudo. Para o tanto enorme do que eu não sei. Assim, meus desaniversários começaram a contar a partir de hoje. Não desejo me perder em demora, chegar  mais e mais dentro do tempo e mais fundo. Quando o peso da jornada se fará penoso, difícil, trágico quiçá. Não desejo persistir “ad eternum” na ânsia mui egoísta de desejar viver quando esse viver – do modo costumeiro e conhecido, já não for minimamente proveitoso a ninguém e não sirva para mais nada. Não. Desejo apenas a justa medida. Bem pesada e recalcada. Tempo bastante para abraçar a vida, conhece-la um tanto. Desassombrar-me e partir dela sem deixar nenhum rastro que não essas migalhas que se tem por lembranças e por saudade.

3 de set. de 2013

BANGALAFUMENGAS & PLATIBANDAS OU: PIMENTA NO CÚ ALHEIO É HIPOGLOS.

Sim, sin salabin... Mal minha amada se despede eu volto meus olhos ao ofício algo triste de escumilhar os escritos d’outros a busca de conhecimento. Sim, esbarro n’algum vez  por outra. Mas, a maior parte não se dirige ao público cretino de todos os dias e todas as ruas e todas as horas. Ao público servente. Não, o código em que está cifrado um suposto e oco conhecimento é por si só invólucro e substância. Porque outro valor não possui. Nem outro teor dispõe. Só retórica e vazio. As teorias se multiplicam. Locupletam-se, se avolumam. Pautadas e esquematizadas em gráficos demo psicológicos das massas. Ahhh, essas massas, semolina, pesto ou qualquer espaguete com Giuliano Gema e seu indefectível ar bom moço. As teorias se alastram como fogo deitado em palha seca. Sobe na perna do passante essa centelha e queimando lhe os fundilhos instaura um desassossego, uma “cosca” na zona centro baixa de seu excretor. Eis: Literatos que nunca contaram nada de modo aprazível tergiversam. Coçam seus cavanhaques. Meditam neologismos aplicáveis ao “rendez-vous” jargão da categoria dos meditabundos da teoria, porque a teoria é o fulcro. Antes desse método investigativo a ciência não caminhou um passo e a humanidade, a grosso, não produziu nada. Nada a não ser talvez reduzir de uma passada em garranchos aramaicos essa cambada teórica ao que realmente é: Pó. Pois sim senhoras, senhores e amiguinhos fãs do Vila Sésamo. Um judeu esperto, ou se nem tanto judeu, um canaanita, ou se ainda nem canaanita um acadiano, um moabita, um egípcio esperto qualquer escreveu e assinou lá no antanho antes da história: “Tu és pó. E ao pó hás de voltar! Assinado: Deus” Pronto. Voilá! Todas as teorias e discussões centradas na retórica brumosa do pessoal fã do Liceu e da Academia. Toda a diacrítica histórica resumida numa frase com firma reconhecida tabajara. Todo saber pós qualquer coisa civilizada que não tenha sido um escrito de Lao Tsé ou de Imothep, vizir e arquiteto do faraó Djozer se desfaz em pó diante da máxima proto semita.  Porém, ai porém, nenhum filólogo estará satisfeito com uma explicação sintética. Pois, a máxima da teoria é confundir. Quando poderia só explicar. De modo simples... se permitiria mesmo, a usança dos dicionários a fim de poluir o tecido da língua pegajosa de Camões. ...mas, hoje não, hoje não permito nada. Quero minha princesa de volta e já. Vestida só com as luzes de Vésper. E tudo ao som de um blues. Um velho, belo e digno blues. Que não teorize a porra da vida porquanto ela já é chata e complicada.
“ O artigo tem como objetivo apresentar uma reflexão teórico-metodológica acerca de uma imagem do final do século XIX”.
... Pérolas como essa são encontradas à granel no discurso padronizado impreciso e vago do academismo. Uma dialética genérica, paraguaia, permeia essa produção acadêmica que se debruça sobre o abismo do nonsense com ares blasé. Haja paciência. Não bastava ao “totó” dizer que o objetivo do trabalho era analisar e discorrer sobre uma imagem? Claro que não. Ele precisa cacetear. Precisa encher a linguiça sem trema agora com um sem número de rebusques, muitos desses, invencionices de jargão. Um ramerrão da academia dignos do código Da Vinci, já que seus significados são pouco precisos. Como disse antes, são vagos. E inacessíveis aos zé manés. Os idiotas para os quais isso não é produzido. Pois toda a oferta de quer que seja ao zé mané é regulada por uma política rígida da “dose”. Dosa-se conta gotas a distribuir uns bigós de macaxeira mais umas doses de cachaça, e outras tantas doses de “soma” descrita por Aldous Hexley no seu Admirável mundo novo. E se dosa o acesso ao conhecimento regulando e limitando o domínio dos códigos que possibilitam o decifrar da geringonça. Putaria geral.

Impressionante é a ocupação desses agentes do “mequetrefismo” procurando sempre mais chifres em cabeça de cavalo. Procurando unicórnios, por conseguinte. Que bosta... ao depararem-se com a foro de um velho armazém eles tem a pachorra de indagarem “qual seria a intenção da fotografia?” e, pasmem, afirmam que é possível depreender da imagem o status de cada um dos que aparecem a partir da posição dentro do quadro da foto. Putz grilla, como é possível tal afirmação? ...To fora.

15 de jul. de 2013

CLOWN

TIVE OLHOS NEGROS
DE RETRÓS,
O TEMPO ESCAFEDEU.
FRANJAS AZUIS
DE BARBANTE,
O VENTO PUIU.
GRAVATA GIGANTE,
TAMPAS DE REFRIGERANTE
MEU OLHAR DESCOLORIU...
TIVE CARECA POSTIÇA
NARIZ DE BOLOTA VERMELHA
NÃO ESSA PALIDEZ MORTIÇA
PATÉTICA E BOTELHA,
TIVE CALÇAS ENORMES
IMENSOS SUSPENSÓRIOS
SAPATOS IMENSOS DISFORMES
OUTROS ACESSÓRIOS,
ABRI ESSA BOCA
COMO QUEM SORRI,
DE CASACA E TOUCA
EU ADORMECI.
TUDO PASSA À LEMBRANÇA,
TUDO TORNA A VOLTAR
PERDI TODA ESPERANÇA

JÁ NÃO SEI MAIS BRINCAR.
O FANTASMA DE ANTONINHO




[...] a velha beata Candoca (dona Enedina Pureza Rodrigues) dava dinheiro, às escondidas do marido, ao filho Antoninho. Antoninho era um andrajo. Esmolambado, batido, surrado... Curvado sob um peso invisível aquela criatura fora escorraçada pelo pai Antônio, o Catimbau. Dono de armazém, padrinho de minha mãe.
Vez ou outra, Antoninho, aquela figura melíflua vinha de Porto Alegre. Amarfanhado, encolhido, as mãos trêmulas, soturno, medrado. Rastejante na sua condição de homem humilhado pela ignorância gnóstica cristã contra o homossexual. Assim se apresentava Antoninho, vergado sob seu fardo, a fronte voltada para o chão.
Eram os anos setenta. Tenho lembrança da figura alta, ossuda, de cabelos e olhos claros e ralo cavanhaque. Recordo seus trajes um ou dois números maiores, desconjunto, e seus tiques neurastênicos: A voz hesitante num fio, cacofônica. O olhar irrequieto e miúdo. Temeroso como o de um cão enjeitado e faminto. Suportando quase indiferente já um passa fora atrás do outro. Um famélico cão cujo orgulho dissipou-se no éter porque entre os sem eira nem beira não há nenhuma esperança. Nem sobeja a menor das alegrias a não ser a cachaça.  Vivem de restos. Do despejo alheio. Das sobras, de remendos, de memórias que pertencem a outros, alheios a partilhar qualquer coisa consigo...

Na dureza altiva e límpida dos meus sete anos pouco se me importava à sorte de Antoninho. Seus dissabores. Nos meus heroicos sete anos queria saber das goiabas, bergamotas, nêsperas e maçãs do grande pomar na casa do Catimbau... Porém, hoje, nesta manhã chovediça e fria, devoto um pensamento a esse fantasma que o tempo consumiu. Sem, no entanto, fazer com que eu o esquecesse. E, pelo cristalino dos olhos de uma criança, de um menino de sete anos, o tímido Antoninho vem espiar mais uma vez este mundo. Talvez agora esteja ele menos assustado; quem sabe? Talvez agora finalmente esteja em paz!