Casa d'Aldeia é a casa original, a mais antiga habitação de minha cidade natal Cachoeira do Sul. Habitação, que, igual a cidade, apesar de tantos golpes de vento e borrascas sazonais teima em manter ao menos duas paredes de pé. Casa d'Aldeia é a minha casa. Seja bem vindo a ela!
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15 de jul de 2013

CLOWN

TIVE OLHOS NEGROS
DE RETRÓS,
O TEMPO ESCAFEDEU.
FRANJAS AZUIS
DE BARBANTE,
O VENTO PUIU.
GRAVATA GIGANTE,
TAMPAS DE REFRIGERANTE
MEU OLHAR DESCOLORIU...
TIVE CARECA POSTIÇA
NARIZ DE BOLOTA VERMELHA
NÃO ESSA PALIDEZ MORTIÇA
PATÉTICA E BOTELHA,
TIVE CALÇAS ENORMES
IMENSOS SUSPENSÓRIOS
SAPATOS IMENSOS DISFORMES
OUTROS ACESSÓRIOS,
ABRI ESSA BOCA
COMO QUEM SORRI,
DE CASACA E TOUCA
EU ADORMECI.
TUDO PASSA À LEMBRANÇA,
TUDO TORNA A VOLTAR
PERDI TODA ESPERANÇA

JÁ NÃO SEI MAIS BRINCAR.
O FANTASMA DE ANTONINHO




[...] a velha beata Candoca (dona Enedina Pureza Rodrigues) dava dinheiro, às escondidas do marido, ao filho Antoninho. Antoninho era um andrajo. Esmolambado, batido, surrado... Curvado sob um peso invisível aquela criatura fora escorraçada pelo pai Antônio, o Catimbau. Dono de armazém, padrinho de minha mãe.
Vez ou outra, Antoninho, aquela figura melíflua vinha de Porto Alegre. Amarfanhado, encolhido, as mãos trêmulas, soturno, medrado. Rastejante na sua condição de homem humilhado pela ignorância gnóstica cristã contra o homossexual. Assim se apresentava Antoninho, vergado sob seu fardo, a fronte voltada para o chão.
Eram os anos setenta. Tenho lembrança da figura alta, ossuda, de cabelos e olhos claros e ralo cavanhaque. Recordo seus trajes um ou dois números maiores, desconjunto, e seus tiques neurastênicos: A voz hesitante num fio, cacofônica. O olhar irrequieto e miúdo. Temeroso como o de um cão enjeitado e faminto. Suportando quase indiferente já um passa fora atrás do outro. Um famélico cão cujo orgulho dissipou-se no éter porque entre os sem eira nem beira não há nenhuma esperança. Nem sobeja a menor das alegrias a não ser a cachaça.  Vivem de restos. Do despejo alheio. Das sobras, de remendos, de memórias que pertencem a outros, alheios a partilhar qualquer coisa consigo...

Na dureza altiva e límpida dos meus sete anos pouco se me importava à sorte de Antoninho. Seus dissabores. Nos meus heroicos sete anos queria saber das goiabas, bergamotas, nêsperas e maçãs do grande pomar na casa do Catimbau... Porém, hoje, nesta manhã chovediça e fria, devoto um pensamento a esse fantasma que o tempo consumiu. Sem, no entanto, fazer com que eu o esquecesse. E, pelo cristalino dos olhos de uma criança, de um menino de sete anos, o tímido Antoninho vem espiar mais uma vez este mundo. Talvez agora esteja ele menos assustado; quem sabe? Talvez agora finalmente esteja em paz!