Casa d'Aldeia é a casa original, a mais antiga habitação de minha cidade natal Cachoeira do Sul. Habitação, que, igual a cidade, apesar de tantos golpes de vento e borrascas sazonais teima em manter ao menos duas paredes de pé. Casa d'Aldeia é a minha casa. Seja bem vindo a ela!
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23 de nov de 2008

Brincadeira de criança??

Dentre as inúmeras brincadeiras, peripécias, jogos e folias alguns apresentadores de programas infantis da televisão brasileira promoviam concursos bizarros. Um desses era incentivar seus preciosos "baixinhos" a rebolar sobre a boca de uma garrafa de cerveja para 600ml posta em pé sobre o centro do palco.
As competições de todos os tipos exploravam certa animosidade (sexismo) existente na infância entre os gêneros. Todas as provas se compunham por rivalizar um time masculino e um feminino. Pedagogicamente incorreta, essa divisão não é nada saudável. Mas pouco se lhes importava - aos apresentadores e produtores - gerar uma espécie de regra maniqueísta. Subliminarmente afirmativa da impossibilidade de co-existência produtiva e cooperação entre meninos e meninas. Tal política de exclusão parecia inocente, porém sinaliza de modo enfático ser o parceiro ideal ou grupo ideal todo aquele com o qual as crianças têm maior identificação. Ou seja, a quaisquer outros a melhor escolha é sempre a de um congênere. Essa era atitude recomendada: descartar, sempre que possível as diferenças. Sem dúvida uma espécie de "apartheid".
Também a sexualização precoce das crianças não é exatamente uma novidade. As meninas principalmente são expostas a uma erotização agressiva por parte da sociedade. Sociedade cujos preceitos morais baseados na moral judaico-cristã corromperam-se e de modo ambíguo acusam os modos imorais desse ou daquele reprovando o afrouxamento do comportamento o qual,de modo contraditório, toleram.
Imitações consideradas "graciosas" da parte das meninas, de performers como "mulher melancia", "mulher maçã", e outras tantas personagens do mambembe nacional estimulam a erotização porque reproduzem o comportamento das referidas "artistas" e suas maneiras apelativas ao sexo.
Tal permissividade sempre foi a tônica na sociedade brasileira. E censurar essa ou aquela manifestação pontual nunca será resposta efetiva para o problema grave da "bandalha generalizada" nos meios de comunicação de massa.
Educação. Oferta de qualidade cultural. Estímulo ao desenvolvimento intelectual das crianças; fomento e incentivo à leitura. Isso sim modifica a tendência a um comportamento reprovável. Volvendo a atenção do indivíduo para questões de real importância na formação de seu caráter.
Portanto essa crise moral decantada há duas ou três gerações decorre , dentre outras coisa da perda do poder paterno, do desmazelo e da falta de disciplina na educação dos filhos. Do excesso de tolerância familiar e social ao que é reprovável e indecente, e tais responsabilidades cabem primeiro às famílias, depois ao sistema de ensino. Principalmente ao público - para onde se destinam amaioria dos alunos, há muitos anos em situação decadente (quanto a método e pedagogia) e falimentar.
Tanto a sociedade quanto as rdes de ensino públicas e privadas precisam repensar urgentemente o teor e os métodos da educação oferecida em casa e nas escolas aos futuros dirigentes deste país. Para que os escândalos tão comuns a nós hoje diminuam em ordem de ocorrência e proporção.
Tenho certeza que para muitos meu discurso parece conservador. É conservador, ou quer ser, mas insisto, apesar de não ter sido abençoado com filhos tudo quanto tenho visto não me agrada nenhum pouco. Quem duvida basta dar uma espiada no programa Super Nani do SBT que vai ao ar todos os sábados á noitinha e conferir exatamente sobre o que estou falando.

22 de nov de 2008

Hoje acordei frustrado...


Porto Alegre, 22 de Novembro de 2008

Hoje acordei frustrado...
Uma tristeza de descrente pairava sobre minha aura...
Um humor perverso me assolava e se anunciava perigoso, sorrateiro, vigiava minha frustração esperando a brecha para penetrar em meu íntimo e dali infernizar a mim e a todos a minha volta. Ainda sinto o cheiro dele, está por perto, bem perto... Houve um momento em que se apossou de mim, e obteve ajuda, se fortaleceu e num só golpe invadiu também minha companheira... Acho que agora está lá com ela... Não tenho certeza, mas não está comigo... Um amigo me puxou na hora exata, me fez retornar pra lúgubre frustração em que eu me encontro desde o despertar... Vamos a ela então.
Na infância os sonhos dominam o universo do nosso desejo, tudo é novo e desejável, tudo um dia estará ao alcance das mãos, sabemos disso e não nos preocupamos em delinear algum caminho entre nós e o objeto de nosso desejo, sabemos que um dia será possível, não existem sonhos impossíveis para uma criança, uma vez que não vislumbramos obstáculo além da própria infância, que sabemos, não permanecerá conosco muito tempo...
Chegamos à adolescência e os sonhos ganham novas proporções, mais tangíveis agora, porém não menos difíceis... Agora percebemos a distância, o caminho a ser percorrido, e, por mais longo que seja, sabemos que é possível, sabemos que temos a força, a coragem e as pernas que nos carregarão por qualquer caminho que optemos em seguir, existe a frustração natural de saber que não era apenas a infância que nos separava dos nossos sonhos, e existe um receio de que outra surpresa desagradável como essa se apresente mais a frente, e que ao superarmos o novo obstáculo que até então desconhecíamos, outro surja. Mas, se a infância acredita que tudo será solucionado simplesmente com o romper da adolescência, esta, um pouco mais sensata, sabe que precisa construir um caminho para ajudar o adulto a caminhar, e julga que isto será o suficiente, preparar o adulto, dar-lhe ferramentas, experiência (que afinal é o que o transformará em adulto), e ele saberá como alcançar os sonhos...
Enfim, todos os sonhos e esperanças da criança e do adolescente pesam sobre os ombros deste adulto, foi tão demorado chegar aqui, tivemos que adiar tantos planos, agora é a hora da realização, não achamos a quem transferir essa responsabilidade, não há mais tempo para prorrogar nossas realizações, seria impensável transmitir a responsabilidade e os prazeres adjuntos dos nossos sonhos a um velho. Não! Tem que ser agora! Exatamente agora, mas um agora exatamente depois de resolver o agora, pois o que tem estado no futuro desde a infância, lá permanece, o agora é outro, o presente é imediato, não sonha, sequer dorme direito. O presente tem fome, tem frio, tem que se abrigar do tempo e tem que abrigar aos seus, cuidar da fome e do frio destes também, crianças e adolescentes cheios de sonhos que serão realizados quando se tornarem adultos, é preciso manter esses sonhos vivos, e é preciso manter o adulto sonhando com o futuro enquanto cuida do presente... E no presente ele sonha de no futuro solucionar todos os problemas do presente...
Em alguns momentos o adulto consegue dormir, e quando dorme descansa, e descansado se põe a sonhar (as vezes sonha acordado e cansado mesmo, pois é preciso sonhar mesmo insone), e o sonho do adulto, embora muito diferente dos sonhos que o trouxeram até aqui, está muito mais próximo, quase dá pra tocar. Pois o adulto não se permite sonhar com coisas inatingíveis, seus sonhos são palpáveis, bastam alguns pequenos detalhes para alcançá-los, faltam apenas alguns passos, e muito mais que a criança (que teria que esperar acabar a infância) e o adolescente (que teria que construir uma estrada), o adulto se põe a sonhar intensamente, a planejar cada passo, a antever cada possível percalço e se prevenir para cada um deles. Ou seja, agora temos um plano, não mais sonhos, agora sabemos o que fazer, se não temos as ferramentas todas, sabemos onde adquirir, sabemos quem pode nos ajudar, estamos prontos, enfim, nada pode nos deter agora...
O adulto se vê então inundado de fé e esperança, o jogo começa a se desenhar a seu favor, já é possível vislumbrar cada passo, diferente dele mesmo anteriormente, quando criança e adolescente, ele sabe que pode, sabe até como, falta muito pouco, um detalhe...
E como um jogador de Poker ele se vê forçado a apostar toda sua expectativa (e as vezes todas as fichas) nesta jogada. O jogo é dele, após muitas rodadas ele tem uma mão perfeita... Digamos que ele começa com um par de “Ases”, aposta um pouco, surgem as cartas e são um “Ás”,um “3” e um “6”, agora ele tem uma trinca, as outras cartas são mais baixas que as dele e nenhuma repete, ele sabe que tem a melhor mão da mesa, aposta... E surge um “J”, ainda está tranqüilo, a não ser que venha outra carta “3”, “6” ou “J”,ou ainda alguma que ajuda a completar uma seqüência, pode ter certeza de que a mão é dele, o coração está acelerado, as fichas tremem quando ele as lança à mesa, só falta uma carta e é um “K”, ele sabe que ganhou, ele tem a melhor mão da mesa e aposta tudo, eufórico, sem pensar... E perde! Como? Como? Como ele não percebeu que três das cartas na mesa eram do mesmo naipe? Como ele não cogitou a possibilidade de um FLUSH? Como ele pode ser tão burro? Agora perdeu tudo, principalmente o sonho...
Mesmo que ele tivesse vislumbrado a possibilidade de outro jogador ter um FLUSH, ele teria a obrigação de apostar, é assim o jogo, se quer ganhar aposte, e pode ser que perca... No momento em que o adulto vislumbra uma oportunidade única (a oportunidade única costuma acontecer poucas vezes), ele se vê obrigado a apostar, de dentro dele duas vozes o impelem a isto, a criança e o adolescente. O primeiro lhe diz: “Eu sonhei por ti, agora é a tua chance de realizar meu sonho”, o segundo completa: “Eu te trouxe até aqui, não vá amarelar agora que estamos tão perto”, e ouvindo sabiamente suas vozes interiores o adulto se lança ao encontro da sorte (ou seria de encontro à sorte?).
Esse passo inevitável faz ressurgir a ingenuidade da criança, a impulsividade do adolescente e a frustração de três gerações decepcionadas, não sabem nem com quem... Com o mundo talvez...
É a sensação terrível de ter feito tudo certo (tudo?)...
Está bem, falhamos em algum ponto, mas fizemos “quase” tudo certo...
A quem podemos culpar? A nós mesmos?
Se fizemos quase tudo certo?
Ao mundo que não tolera o “quase”?
Não, não há culpados, fizemos o que podíamos ter feito, sempre é possível melhorar, mas NÓS, NESTE MOMENTO, fizemos o que podíamos ter feito, fizemos o melhor de nós, apostamos nossa melhor energia, nossa mais ingênua expectativa, fizemos o que sabíamos fazer enfim, não poderíamos fazer mais que isso...
Tão pouco podemos culpar o mundo e as leis que o regem, ele também está fazendo o melhor que pode, talvez não seja o melhor pra nós, mas certamente é o melhor pra ele, e s nós fazemos parte dele, em última análise também é o melhor pra nós.
As pessoas que nos cercam poderiam ter ajudado mais?
Claro que sim, se não estivessem envolvidas com seus próprios problemas, seus próprios sonhos irrealizados, suas crianças e adolescentes aguardando ansiosos a hora de gritar “APOSTE AGORA”!
E é nisto que se resume a frustração, uma tristeza sem culpa e sem ter a quem culpar, uma certeza de ter agido certo e ter se dado mal...
Uma vontade de não acordar, de seguir dormindo, e de poder sonhar, pois nada é mais necessário do que sonhar outro sonho, um sonho palpável, com caminhos delineados que nos levem até ele... É preciso substituir o sonho morto por um novo, jovem, cheio de vigor.
Vou dormir agora novamente...
Nem bem acordei, mas já vou dormir novamente...
Preciso refazer meus sonhos, arquitetar meus planos, organizar minhas ferramentas... E o mais difícil... Medir as pessoas pra saber com quem contar, pois é preciso não estar sozinho, mas é preciso cuidar de não querer que as pessoas sonhem o sonho que é meu, e de não frustrá-las ao me frustrar...
Agora vou dormir...
Hoje acordei frustrado...

20 de nov de 2008

Descascando a Pacoba



Seguindo a linha da teratologia midiática, a pauta de um programa televisivo da rede Tevê, Super Pop levou ao ar no dia 18/09 o tema "Atrizes Pornô". Algumas beldades veteranas no "métier" (perdoem o trocadilho fonético) de descascar a pacoba, compareceram ao debate.

Há um adágio popular na região do pampa gaúcho: "- Tirar leite de vaca morta!" Cito o ditado como metáfora, afinal a pobreza do assunto pornografia esgota-se na origem do substantivo. Pessoas atuando nessa área lá estão exclusivamente por dinheiro. Não acredito, e vários depoimentos corroboram isso, haver grande índice de compensação física para as atrizes pornôs.

Indústria crescente no mundo, mesmo em tempos de franca expansão do HIV, a pornografia cumpre a função antiqüíssima de alimentar devaneios. Satisfazendo curiosidades e fantasias de uma legião de vouyers das mais variadas idades e condições sociais. Nos primórdios da pornografia (não levo em conta aqui imagens, esculturas, narrativas, que recheiam a história da humanidade desde sempre), ou seja, da idade média para cá, os ítens disputados pelos apreciadores foram iluminuras inicialmente, depois, com o advento da fotografia, postais em preto e branco mostrando mulheres nuas ou casais praticando sexo. Isso sem falar na literatura libertina produzida continuamente por todas as culturas humanas. Cito como exemplos clássicos Safo, Petrônio, Musset e o conhecidíssimo Sade.

Nos anos quarenta, para aliviar as tensões no front da segunda guerra alguém teve a brilhante idéia de produzir revistas coloridas mostrando casais praticando o coito. Ficaram conhecidas como revistas suecas, uma alusão ao liberalismo sexual dos normandos, ou vickings se preferirem. Elas circularam durante décadas no Brasil. Porém, nos anos sessenta um modesto funcionário público de nome Alcides Caminha, encampando a causa dos punheteiros nacionais iniciou a produção dos libretos desenhados a bico de pena que fizeram a alegria do pessoal. Sob a alcunha (codinome) de Carlos Zéfiro ele produziu centenas desses pequenos livrinhos toscos aos quais se apelidou "catecismos", e que hoje em dia são objeto do desejo de colecionadores. Chegando alguns exemplares raros a valer algo em torno de 500 ou 600 reais.

Com o cinema mudo concomitantemente surgiu o cinema pornô. De início filmes caseiros, produções baratas sem banda sonora em P&B. E, com a evolução do cinema, mesmo sob repressão etc, o pornô evoluiu. Ganhou som e cor... No Brasil oficialmente foi proibido de entrar por um bom tempo. Mantinha-se na clandestinidade enquanto o regime militar tolerava a existência de um cinema erótico nacional "made in boca do lixo" (zona de meretrício do Rio de Janeiro). As chamadas "Pornochanchadas".

Desde tempos ingênuos quando em plena ditadura militar o desobediente Carlos Zéfiro (vento do oeste) produzia de forma rudimentar centenas de catecismos abordando variadíssima gama de fantasias sexuais do imaginário popular, as coisas mudaram radicalmente.

Do famoso filme pornô canadense "Deep Throat" filmado em 6 dias em janeiro de 1972, protagonizado pela feiosa Linda Lovelace, a pornografia abandonou o romantismo amador pra se tornar um negócio bem dirigido e muito rentável. Só para constar: Essa primeira produção que marcou a transição do amadorismo para o modus operandi profissional, custou 24 mil dólares e foi financiada pela máfia.

Daí para cá, num crescente as produções tornaram-se cada vez menos eróticas e mais ginecológicas. Argumentos foram desprezados - descartados na verdade. Os afamados pornô com estória não vendem. O espectador de filmes pornôs, de modo precoce, dispensa preãmbulos. Quer ação ampla, imediata, geral e irrestrita.

Parafilias sexuais como bestialismo, sadomasoquismo, gerentofilia, urofilia, fist fucking, enema etc, etc. Viraram rotina nas produções pornográficas.

Uma das formas de obscurantismo mais agressivas e lucrativas a pornografia ganhou mercados no mundo inteiro. Entretanto, preocupante é saber que além da indústria pornô oficial, pagante de impostos, com firma constituída, existe um underground muito perigoso. Onde todas as sevícias e crimes são cometidos, registrados e oferecidos a consumidores que não passam de pervertidos. Doentes viciados em toda forma de degradação.

A pornografia continua como sempre, sendo um arremedo da satisfação psicológica que não pode oferecer a ninguém. Bem como a falsa representação de uma realidade com a qual nunca conseguiu ao menos flertar.

19 de nov de 2008

Vícios de linguagem

O emprego do advérbio de lugar "aí" virou praga na locução brasileira. Antes limitado aos narradores futebolísticos, o afamado advérbio de lugar migrou para outros setores do jornalismo rádio televisivo. Um vício de linguagem horroroso!
Diariamente os malventurosos néscios inflados e ridentes, enfunam velas soprando palavrório rumo aos ouvidos desprotegidos dos telespectadores e ouvintes desavisados. Por osmose, tais vícios são incorporados ao falar de toda gente, transformando-se em pandemia incontrolável.
Exemplo claro disso é a locução adverbial "com certeza", cujo uso indistinto como bordão pela apresentadora Leda Nagle disseminou seu emprego Brasil afora. Tal locução adverbial infestou de tal forma a linguagem coloquial, a ponto de qualquer um, em qualquer circunstância imaginável ou não achar um jeito de encaixar no meio de seu discurso um: "com certeza". Fazendo uso desta expressão como substituto de uma simples afirmativa ou negativa - pasmem! Isto em face de um outro grave problema midiático nacional: as perguntas indutivas. Felizmente, podemos contar (nos dedos) alguns entrevistadores preparados. Aparentemente imunes à epidemia de estupidez.

16 de nov de 2008

Ignorãncia democrática

A 54ª Feira do Livro de Porto Alegre teve um saldo positivo quanto à comercialização. Mesmo com os preços altos das edições, e, a pouca oferta de qualidade editorial, o evento,mais uma vez provou-se lucrativo. Não tanto quanto a edição passada segundo declarações dos organizadores. Mas, em tempos de recessão muito mais não se espera.
A mercancia da cultura é a tônica do modelo neo-liberal ao qual estamos entregues faz tempo. Talvez causasse vergonha irmos à uma feira do livro e sairmos de lá carregados de edições baratas. Ou exemplares suprimidos ás caixas de saldo Porque seguindo uma tradição remontada à idade média o viço das belas edições conta mais. Se tem capa bonita não importa muito o conteúdo.
Não vou me deter comentando todas (apenas algumas) as mazelas do mercado editorial brasileiro. É sabido e decantado serem todos os livreiros que trabalham com usados, sem exceção, aves carniceiras. Há sebos de respeito, como o de meu amigo Moysés Palma ali debaixo dos arcos do viaduto da Borges de Medeiros. Moysés seguindo a tradição cultural semita não pratica a usura. Não escorcha sua clientela. Contudo ele é exceção. O comum é esses livreiros "farejarem" o ar atrás de bibliotecas cujo dono, geralmente um bibliófilo falecido, lega à viúva uma magra pensão. E seus filhos pouco se interessam pela sorte do que para eles é apenas papel velho embolorado. Tendo rastreado a biblioteca em questão o livreiro velhaco aproxima-se da viúva e lhe oferece um preço irrisório para retirar dessa biblioteca coleções e exemplares interessantes para si.
Essa rapinagem é muitíssimo praticada no mundo inteiro... Conheci um velho livreiro, já falecido, felizmente, muito afeito a essa prática. Inescrupuloso, esse homem, cuja lembrança até hoje me causa ira, a custa de uns poucos vinténs arrebatava ás viúvas tudo quanto lhe interessasse do espólio do falecido...
Sem políticas de formação de leitores. Sem políticas de edições populares para oferecer à população livros de qualidade. O que seria fácil, tendo em vista estarem as grandes obras de autores consagrados ingressas já no domínio público a partir de completarem 70 anos desdea data da sua publicação ou gravação. Tal condição permite o acesso livre aos editores para reedição e regravação dessas obras. Nada muito complicado. Porém, das 530 editoras radicadas principalmente nas regiões sul e sudeste do país, desconheço quais desenvolvem projetos visando contemplar a população de baixa renda editando livros a preços acessíveis.
Ranqueado em 63° lugar quanto aos hábitos de leitura (detesto aplicar a palavra consumo quanto à educação e cultura) o Brasil têm acumulado fracassos ao longo dos últimos trinta anos na sua empresa de democratizar e melhorar as condições gerais de ensino, bem como promover a alfabetização real da população. Principalmente suas camadas menos favorecidas. Socialmente vulneráveis como se diz. Sucedem-se as governanças em todos os âmbitos e esferas de poder e ninguém dá mostras de ter aprendido nada com o velho e saudoso mestre Paulo Freire que disse com toda propriedade: "- A ignorância é a maior multinacional do mundo!"

12 de nov de 2008

SARAVÁ, XALEDEBARADÃ!

Muitas e muitas vezes desejei ser mais realista. Menos piegas. Muito mais objetivo, pragmático. Menos, muito menos esperançoso, ingênuo, trouxa. Mas, otário nasce feito, então... Nada a fazer.
Bueno! Por esses dias ando meio "desasado" como se diz cá por essas bandas. Nada assim tão grave. Uma tristezinha básica. Entretanto, de lá de um cantinho recôndito no peito, quem me espiava tímida? Ela, a tão afamada esperança. Sendo assim o chororô é breve. E vamos indo em frente que esse trem tá lotado de gente, e, é expresso.
(...) Pra quem gosta de música brasileira e não viu o dvd produzido pelo francês Pierre Barrouh que saiu pela Biscoito Fino, vale a pena conferir. Não bastassem as figuras notáveis de Pixinguinh e João da Bahiana lá estão Baden Powell, Paulinho da Viola e Maria Bethania ( estes últimos bem mocinhos na década de sessenta) - a primeira filmagem do documentário foi rodada em fevereiro de 1969, época brava no Brasil. Há os extras do dvd, onde aparece um artista impagável. Trata-se de um compositor do morro do Cantagalo. Adão dos Santos Tiago - de nome artístico Adão Xalebaradã ( Xaledebaradã significa: Princípio, meio e fim em Yorubá). Esse legítimo compositor popular deixou como registro apenas um disco: Escolástica. Pelo selo Ambulante em 2003. Adão Xalebaradã, falecido em janeiro de 2004 no RJ, compôs mais de 500 músicas. E quem quiser ouvir algumas das suas canções tem como recurso buscar na web. A pesquisa do google propicia acesso rápido e relativamene fácil aos trabalhos do artista.
Além dessa revelação promulgada por Pierre e pelo cineasta Walther Salles na emenda de Saravá feita em 1998; o filme todo é uma aula de brasilidade. Sensível. Ora alegre, ora melancólico. Lírico e delicado como só o samba e o compositor popular brasileiro sabem ser.

9 de nov de 2008

RASIF, O MAR QUE ARREBENTA

UMA VEZ, ENCARVOADO POR TEUS CONTOS NEGREIROS, EU TE DISSE: - Segue teu canto Marcelino. Impregnado de teus Contos Negreiros eu não senti que vertia meu sangue. Era como se cortassem artéria por artéria. Era como se gritassem um brado guerreiro, um brado cavalariano, desesperado, de quem sabe estar pra morrer. E morrer, não pode ser nada além de aquietar-se... Mas, as idéias ficam, morrem os homens. As idéias dão cria. Deliciosas, perniciosas, fermentam bacilos em profusão. Idéias infectam.
Agora tenho às mãos RASIF, teu canto mais recente. Igual sucedeu aos Contos Negreiros já adiantei-me a musicar tuas palavras. Musicar não. Quedar-me solito, quieto a ouvir as melodias manando delas.
Hão de me abrir o peito essas canções. Chegar às gentes, praças, tabacarias, supermercados. Tal cigarra as cantarei até morrer exausto por crer na sinceridade delas. Por crer no amor. Único motivo plausível; o amor ao próximo. Amor e compaixão pela humanidade humana. Rasteira. Desordeira. Pedinte. Mendicante de tudo. Afeita ao préstimo, ao roubo, ao logro, ao embuste, ao golpe, ao faz favor. Humanidade imutável no correr dos séculos de incivilização. Humanidade imune às mensagens do Cristo, de Buda, de Confúcio e Oxalá. Humanidade vizinha de minha taba. Revirando-se no lixo da cultura yanque. Vivendo de resto se lhes atirado a cara diuturnamente por uma imprensa pelega, vendida e vendilhona. Humanidade escorchada, oprimida, nas vilas, filas, fazendas, fábricas, favelas, trapiches. Humanidade escrava de sua própria história obscura. História plena em injustiça. Crueldade. Velhacaria. Corrupção.
Há de rebentar-se esse peito como fôra a quebra de um vagalhão explodindo sobre os molhes da barra portuária. Varrendo terra adentro toda a imundície. Varrendo, sem dó, toda sujidade "clean", produzida pela parte desumana da humanidade. A parte responsável pelo estado de desaforos no qual se encontra o mundo. Marcelino, meu irmão, cantemos juntos essas canções de amor e esperança.

6 de nov de 2008

Mameluco

É um lamento só. Lamúrias, queixas, dúvidas, dívidas... Haverá algo de bom? Há sim. O sol quando aparece. O amor sobrado dentro do velho peito. Como fôra Aracy (a mãe do dia) morando lá desde sempre. Lumiando os passos do menino. Amor vazando desses corgos arteriais pro chão onde se infiltra e irriga a vida doutros. Amor passarinheiro. Muita vez desperdiçado na sanha aflita e confusa de se obter vitória quando a calma suscita galgar maior conquista. Amor brejeiro, ingênuo, ardente. Recendendo a bergamotas açúcar (os árabes o chamavam sakkar: areia).
Cada povo se especializa conforme seu habitat. Esquimós têm diferentes nomes pra neve. Eu e Aldir Blanc por certo os temos pros pomares. Não copiei Aldir, dez anos atrás ao descrever a delícia madura da bergamotas e o sol de novembro enraizado nelas fazendo-as madurar. A delícia de, molecote, me enlambuzar encarapitado na copa da bergamoteira. Olhando o sol poente, longe, longe, imensa bola de fogo avermelhada tisnando tudo com o rubi de seus raios. Sumindo no horizonte lhano, lá pronde o Jacuí faz uma curva deixando pra trás a última vila da Cachoeira. Guardo esse amor e quero tê-lo quando o sono ou o desespero me procurarem.

Cismas

Não sou bonito. Baixo. Atarracado. Sobrancelhas espessas. Nariz achatado. Tez oliva, querendo amulatar. Não sou bonito, tampouco genial. Não completei os estudos. Aprendi na marra. No esforço da imitação. Não sou bonito mas sou esforçado. Carrego genes antigos. O fator rh positivo, grupo sangüíneo O, atesta isso. E aproveitemos enquanto o trema não cai por terra nessa desditadura da dita cuja última flor do Lácio. Seria isso um abacate? Sei lá. Que se dane.
Os portugueses intercambiaram pomares. Trouxeram mangueiras & bananeiras depois de Cabral fazer bombardear Calicute. Raptaram (na assepção etimológica da palavra) mudas de nêspera em Macau, mau negócio. Comparada ao caju, plantado naquelas bandas pelos portugas a nêspera ou ameixinha amarela, é uma josta. Por enxerto adaptaram-na aqui. Pra lá levaram maniçoba. Da África trouxeram a Noz de Cola, Jaca, Marula. Em troca lhes apresentaram mandioca e amendoim. Até hoje os angolanos acreditam ser o amendoim nativo de lá.
Não sou bonito. Não tenho dinheiro. Muita vez, envergonhado, rasinho, passo dificuldades. Conto com mercê alheia. A meu favor há essa herança de antepassados misturados num caldo genético indescritível. Dos semitas errantes da crescente fértil, de celtas místicos habitantes da antiga Ibéria, dos bantos retintos origem das sendas humanas, dos amerabas de tronco lingüístico jê espalhados nas planícies (planitie glaucu) pampeanas.
A meu favor essa vontade de ser bom moço (talvez concordando com a teoria de Rousseau - o bom selvagem). Não sou bonito. Não tenho viço. Não tenho dinheiro. Minha importância se resume ao fato de respirar, ocasionalmente profundo. Mas, hoje, justo hoje. Insone. Batido pelas tantas bordunadas certeiras dadas pela vida no cocoruto dos caboclos bestas como eu - respiro devagar. Lentamente. Economizando fôlego e paciência pro longo, penoso, hercúleo trabalho de mais uma vez buscar diligência. Peregrinar, estender a mão com a palma pra cima e baixar os olhos. Baixar os olhos como se os olhos de quem me fitasse não fossem olhos de um reles mortal.