Casa d'Aldeia é a casa original, a mais antiga habitação de minha cidade natal Cachoeira do Sul. Habitação, que, igual a cidade, apesar de tantos golpes de vento e borrascas sazonais teima em manter ao menos duas paredes de pé. Casa d'Aldeia é a minha casa. Seja bem vindo a ela!
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23 de jun de 2014



O DESANIVERSÁRIO

Os “desaniversários” são etapas quase transcendentes na vida de uma pessoa. Quando exatamente começam é variável. As mulheres por uma questão estratégica, ou logística, principiam a conjugar o verbo “desaniversariar” muito mais cedo. Aos 30, 31, quando geralmente irrompem os primeiros fios brancos em suas madeixas. Um pouco mais tarde talvez, pelos 34 quando se encontram na fase da vida feminina tipificada por Honoré de Balzac, e, tendo por isso ganhado a alcunha de “balzaquianas”. Momento em que as rugas dão o ar de sua graça para desgosto das mulheres. O que absolutamente não lhes tira o viço. “Au contraire!” Como diria o escritor francês supracitado. Empresta-lhes um que esplendor, de vivencia, de sagacidade. Porém, as mulheres não se convencem facilmente disso. E um arsenal cosmético se lhes acorre prometendo recompor um tônus epitelial adolescente. Coisa que não será jamais verdade... Ah, os desaniversários. Motivação para eles não nos falta. A ampulheta do tempo escoa-se num único sentido. Sempre em frente, incessante. Mas, como dizia, todas as pessoas, homens e mulheres, n’algum momento principiam a praticar a “arte do desaniversário”. No caso dos homens, também a vaidade, estranha e maneirista compulsão que lhes acomete, impele aos xirús velhos a certa altura da vida, recorrer “ao truque” para melhorar sua aparência. E, diferente das mulheres experientes no uso das “armas” cosméticas meus congêneres tendem ao exagero senão pelo excesso, pelo despropósito. Assim velhos senhores com perucas mal ajambradas e maquiagem desfilam tranquilamente a luz do sol, crentes de que estão ostentando uma “leve” maquiagem corretiva, próximo, muito próximo ao que seria natural. E sobre qual fator recai a culpa desse pecadilho maneiroso do dandi candidato a “Beau Geste”? Sobre o danado do DESANIVERSÁRIO. Porque meus congêneres ao chegar das neves na barba, ao encurtar das vistas, ao sofrear dos ímpetos se põem alertas como cusco de guarda. E essas coisas, esses sinais da intempérie “sic transit” – da vida passageira, nos vêem cedo, muito cedo às vezes. Eu mesmo, aos trinta já possuía grisalhos na barba hirsuta, característica semita da descendência misturada. Então, o desaniversário começa na flor da idade. E qual seria essa idade? Talvez a idade presumida. Ou a acreditada. Ou ainda a idade sentida, na esperança de que os dias se alonguem. Porém, o alongar-se dos dias por si mesmos e para si mesmo que sentido tem? Nenhum, respondo assim sem titubeio. Porque o tempo é justo somente na ação decorrida em prol do outro. Existo porque o outro existe, a essa troca interpessoal os filósofos apelidaram “alteridade”. Existo para experimentar a vida e amar minha companheira. Existo para amar minha família e meus amigos. Existo para servi-los, para dividir com todos esses o fardo inóspito, acre, difícil de procurar respostas para tudo. Para o tanto enorme do que eu não sei. Assim, meus desaniversários começaram a contar a partir de hoje. Não desejo me perder em demora, chegar  mais e mais dentro do tempo e mais fundo. Quando o peso da jornada se fará penoso, difícil, trágico quiçá. Não desejo persistir “ad eternum” na ânsia mui egoísta de desejar viver quando esse viver – do modo costumeiro e conhecido, já não for minimamente proveitoso a ninguém e não sirva para mais nada. Não. Desejo apenas a justa medida. Bem pesada e recalcada. Tempo bastante para abraçar a vida, conhece-la um tanto. Desassombrar-me e partir dela sem deixar nenhum rastro que não essas migalhas que se tem por lembranças e por saudade.