Casa d'Aldeia é a casa original, a mais antiga habitação de minha cidade natal Cachoeira do Sul. Habitação, que, igual a cidade, apesar de tantos golpes de vento e borrascas sazonais teima em manter ao menos duas paredes de pé. Casa d'Aldeia é a minha casa. Seja bem vindo a ela!
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31 de out de 2008

Geladeiras espaciais

O programa espacial chinês - made in Rússia, vai (decola) aparentemente muito bem. Sem tecnologia própria, os chineses deram um jeito de reciclar velhos lançadores Vostok de fabricação russa e de quebra repaginaram a quase hexagenária nave Soyuz, rebatizada Shenzou. A bordo desse monte de sucata recondicionada, mas sem garantia de devolução de grana caso falhe, os "taikonautas", como se denominam astronautas na China subiram aos céus. Sem tecnologia própria os espertos habitantes do "Reino do Meio" importam da Rússia know how defasado em pelo menos três décadas,e, dão a chamada "meia sola" na tralha véia antes de chisparem rumo ao vasto espaço sideral.
Só para se ter uma idéia foguetes lançadores de tipo como o Vostok usado pela China nada são além de imensos depósitos de combustível. Verdadeiras bombas voadoras teleguiadas. Sem tecnologia para a fabricação desses monstros a China exibe com orgulho uma fábrica inteira "novinha" transplantada diretamente da mãe Rússia.
Aliás, no setor aeroespacial a primeira planta fabril instalada na China é de propriedade da Embraer. Antes dela a Avibrás já havia instalado uma linha de montagem para antenas de comunicação via satélite similares ao modelo AN10 fabricadas no Brasil pela empresa paulista.
O contrato firmado entre a Embraer e o governo Chinês prevê a entrega de 20 jatos Embraer modelo 195 para até 120 passageiros. Aproveitando o encejo a indústria brasileira inaugurou uma fábrica na China. A primeira do setor aeroenáutico naquele país.
Não menos admirável e importante foi a iniciativa da indústria Embraco com sede em Santa Catarina. Há treze anos presente na China a Embraco fabrica compressores herméticos para geladeiras. Seja isso: O coração da geladeira onde se deposita o freon. Gás responsável pelo funcionamento do aparelho. A ação de troca de calor que possibilita o resfriamento e a manutenção das baixas temperaturas para conservação dos alimentos. Resta saber se a Embraco, presente há 13 anos no "Reino do Meio" (tradução mais ou menos falcatrua do substantivo China), está presente no mirabolante - e inútil, programa espacial desse dragão superpopuloso. Explico: A tecnologia de resfriamento utilizada nos foguetes da década de 50 e 60 fica muito aquém da empregada nos motores compressores das modernas geladeiras e freezers de alto desempenho e baixo consumo fabricados pela Embraco no Brasil. (Olha a malícia - os compressores fabricados na China são os mesmos do Brasil. Será??)
Qualquer falha nos sistema "refrigeratório" dos velhos Vostok modelo K a gente exporta pra lá um bando de "gabirús" pra abanarem com leques de seda o "rabo do foguete" no momento da decolagem. Pra fixar os gabirús á fuselagem do foguete um item indispensável e infalível: Goma de mascar, o popular chiclete. E um guarda-chuva pra cada um dos cabras poder voltar à terra depois de fazer o serviço. Com direito a uma meia de cana e duas rapaduras por cabeça. Oxente!
(...) Pra fechar: Por ocasião da assinatura do contrato com a Avibras na década de noventa, a China ousou oferecer ao Brasil alguns remodelados "ferros de passar roupa russos travestidos de caças", produzidos sem licença nos fundos de quintal daquele país. Sabiamente declinamos a oferta.

25 de out de 2008

O irremediável

A maioria das situações, felizmente, não se apresenta irremediável... No entanto, o passado é irremediável. Estivessem certas as teorias de Stephen Hawking a respeito dos atalhos cósmicos, talvez pudéssemos remediar todas as mazelas. Redimir pecados. Apagar os fiascos. Mesmo correndo o risco de extingüir a humanidade. Por nosso ego imenso valeria a pena. Não é verdade? Há coias irremediáveis. A morte. A saudade. Todas as misérias humanas traduzidas no jugo de um ser humano sobre outros. A hierarquia, esse monstro subjetivo, implicando numa escala torpe de valores que atribui maior importância a uns sobre outros, quando sabe-se: São todos iguais. Há coisas que parecem irremediáveis. Minha tristeza por exemplo. E foi-se o tempo quando poderia redimi-la inventando uma guerra como subterfúgio. Promovendo a conquista de terras e gentes apenas para me ocultar.

23 de out de 2008

Réquiem

Eu mal havia chegado das minhas andanças nessa pequena cidade e me disseram que tu havias partido pra lonjuras distantes. Muito mais distantes. Lugares onde só a lembrança é capaz de alcançar. Tu que foste meu parceiro no fracasso das empresas mundanas, na desolação de não termos cinco mirréis pra comprar um trago ou um naco de fumo pra fechar um palheiro. Tu que dividiste comigo as filosofias arrevezadas, desfiadas por nós à guisa de passar as horas. Tu que partilhaste comigo parcos caraminguás. Tu que me socorrias em meus percalços eletrônicos. Tu partiste pra esse um outro continente desconhecido dos sóbrios. Ignorado por céticos e materialistas. Tu me farás sentir solidão quando sentir vontade de estar junto de ti para prosear logamente como fazíamos. Tu me farás sentir pesar quando por acaso meus olhos fixarem os de tua mãe ou de teus filhos. Meu amigo Gilberto, agora estás em silêncio; espera por mim.

19 de out de 2008

O QUE HÁ MEU CARO LUPCÍNIO?

Quando a mulher amada sai pela porta pra não voltar,malandro se segura num risinho amarelo, dá tchau, sai correndo.
Não quer dar o braço a torcer. Sente pavor. Sente uma mágoa, pesando feito matacão lá dentro do peito. Exaltado, malandro chora miúdo escondido. Afinal homem não chora. Chora ou não chora?
Quando a mulher amada sai pela porta pra nunca mais voltar o valente se afrouxa. Mata no borrão do peito a esperança. Sustenta nos braços, sob ombros arcados tal Adamastor, o mundo com todas as suas belezas e veleidades. Cruezas, injustiças, misérias também. Quando a mulher amada sai pela porta, o malandro desconfia se vive ou já é defunto. Só não comenta com ninguém, tem medo disso, dessa "morbeza", como diriam Wally Salomão e Macalé, se confirmar.
Quando o amor sai pela porta pra nunca mais voltar, ao menos não dum jeito amoroso, o malandro sabe: Não importa quão belos sejam os sambas compostos graças a comoção. Não importa em quanta cachaça, quanta fumaça, quanta arruaça & trapaça ele se enfie. Não importa nada ele sabe: Vai virar boi de piranha. Rolará sobre cacos de vidro. Se sentirá feito um otário, igual aqueles nos quais dá voltas e aplica salames á granel. Quando a mulher amada não deseja ser amada pelo malandro postiço (porque malandro de verdade não ama, tenteia) o mundo acaba sem samba e sem jazz.

13 de out de 2008

Garatujas

Escrivinhador. Blogueiro. Cronista. Rabiscador. Pixador... Às vezes me pergunto: - Qual motivação real me leva à escrever, à compor música brasileira? Será vaidade? Certamente esse é um componente importante na receita desse bolo. Mas, será fermento ou farinha? Ou seja: Motivo ou necessidade? Não sei. Um pouco de cada. Vou traduzindo o mundo com minhas palavras. Ouso discorrer sobre tudo como qualquer bom charlatão. Das teorias mais herméticas ao prosaico cotidiano, como diz Walli "Sailormoon" na sua parceria com Jard's Macalé na canção Olho de Lince do álbum Real Grandeza : "-Nada me é estranho/fulano, cicrano, beltrano/seja pedra/seja planta/seja bicho/seja humano//" Sendo assim, meto bedelho em tudo. Mas, o que importa de verdade, de verdade mesmo : " mas essa lua/ mas esse conhaque/ botam a gente comovido como o diabo.//" (POEMA DAS SETE FACES- Carlos Drummond de Andrade)...
Já arrumei minha mala. Dia 15 chego em Porto Alegre, mas no dia 16, ah! no dia dezesseis de outubro às 20 horas na sala Bruno Kiefer da Casa de Cultura Mário Quintana, meu compadre e parceiro de composição (há 20 anos) lança seu segundo cd: MOKAMBO. Traduzindo: A música brasileira encontra seu digno representante - Otávio Segala. Espero vocês lá.

8 de out de 2008

ENGODO


Azulejar-se. Cobrir-se de azul até não ser capaz de suportar o peso da cor impregnada na carne por encanto. Passe mágico responsável pela diferença nada sutil entre tecido vivo e a croma lúdica, fria, inanimada. Quase pura. Numa limpidez remetente à ordem imutável supostamente havida. Contrária às leis da natureza reformista.
Azulejar-se, trazendo o céu sobre si. Até sentir-se emparedado. Sepulto, imiscuído nele a não mais poder ter-se distinto do azul profundo e descansado.
Pasma de candura, com dedos diáfanos, a moça acariciava o cetim da cor impressa nas paredes do aposento, onde em coma profundo estava um paciente. Quem sabe? As coisas sucedidas a ele dois meses naquele estado. Talvez por ora repousasse inerme, tranquilo. Quiçá moribundo...
Com vagar ela tateava a superfície azulejada como se medisse a palmo, de alto a baixo inspecionando o ladrilho frio com o tato. Sentia cada friso, cada sulco e reentrância do rejunte. Nesse ato se demorava, pouco notando a presença do convalescente. O qual logo mais tarde trataria tal era seu ofício. Poderia mesmo, compassiva, por um momento estreitá-lo de encontro ao colo pálido. Apanágio dos sofredores.
Devaneando ela se demorava examinando ladrilho por ladrilho a monotonia hipnótica da parede azulejada no quarto do paciente.
Ele, entre aflito e resignado, sem poder ouvir, imóvel sobre o leito, sem poder enxergar, soube de maneira misteriosa o momento da aproximação da mulher. Por essa causa sofreu um espasmo. Percorreu-lhe um calafrio. Estremeceu. Imperceptivelmente agitou-se iniciando lentamente a longa subida desde o abismo fundo e escuro aonde sem forças se pusera abandonado pela esperança. Todavia, sem dor. Sem sentir fisicamente nada. Enquanto emergia teve medo. Um medo bobo é verdade, pois desde muito aguardava esse dia quando ela viria, só não adivinhara fosse tão cedo.
...Cumprindo um ritual encenado incontáveis vezes, a moça, deixando de lado a distração pueril, aproximou-se do leito. Emerso da penumbra confortante, aquele homem moço ainda, abriu os olhos. Inicialmente com cautela, mantendo-os semicerrados por conta do receio da luz. Nada além duma fresta, vão mínimo, o suficiente para enxergar um rosto feminino de linhas suaves. Emoldurado pela cascata negra de uma cabeleira bem penteada. Rosto jovem esboçando um sorriso redentor.
Sentindo-se confuso e indefeso ele se encolheu. Teve medo, quis chorar. Enfim abandonou-se, se dando por vencido. Aceitaria de bom grado o abraço frio daquele anjo, como julgava fosse. Sem pressa a moça graciosa admirou o convalescente, e por algum motivo imperscrutável acenou para ele. Gesto simples, inusitado. Assinalando o cumprimento dum capricho qualquer. Uma veneta complementada com um sorriso jovial e rápida piscadela antes de desaparecer do campo da sua visão.
Tão logo ela se foi instaurou-se um burburinho. Outros começaram entrar no aposento. O farfalhar das gentes, suas falas, risos, foi atirando-o de volta no caudal da vida. E ele, assombrado, sentiu insuflar-lhe o peito com tamanha força e intensidade como jamais experimentara antes.

3 de out de 2008

Só ando em boa companhia




Sinto intuitivamente os bons e maus momentos de um escritor mesmo antes do término da leitura da primeira página. Pressinto quando teve preguiça, tédio, cansaço, distração ou medo. Percebo ao longo do texto quando usou de coragem, ousadia, persistência (afinco), obstinação; de que são feitos os bons livros. E luz interior, transcendência, que ocorre com muito mais raridade.
Arrogo-me essa “clarividência” baseado em minha própria obsessão pela leitura. Dos cinco anos em diante devorei todo material impresso quanto me caiu às mãos. Ler passou a mim como um hábito hereditário – se é possível tal coisa. Meus pais foram leitores devotados durante toda vida. Seu gosto pelos livros e os estímulos para despertar em mim a mesma paixão surtiram efeito. Tanto meu pai quanto minha mãe habitualmente liam para mim.
Lembro que eu e meu pai colecionávamos juntos álbuns de figurinhas; cromos educativos. Era muito agradável abrir os pacotinhos trazidos por ele ao final das tardes na vinda do trabalho. Meu pai era barbeiro. Quando chegava em casa à noitinha abríamos os envelopes de figurinhas e separávamos as repetidas colando no álbum os cromos inéditos. Além das coleções de figurinhas, duas vezes por mês meu pai trazia um calhamaço de publicações: Enciclopédias em fascículos, livros de história, literatura, recreativos e é claro, revistas em quadrinhos de estilo variado. De Tio Patinhas à Mônica, Super Homem, Contos da Cripta, entre outros tais...
Dos livros me lembro do fascínio sentido ao ler As viagens de Gulliver, Vinte mil léguas submarinas, As aventuras de Tom Sawyer, Reinações de Narizinho, A ilha do tesouro e Moby Dick de Herman de Melville que li aos 11 anos entre pasmo e assustadiço. Totalmente maravilhado. Imerso naquela fábula espetacular quase como se fizesse pare da tripulação do lúgubre baleeiro Pequod sob as ordens do medonho, sinistro capitão Ahab. Magnificamente interpretado no cinema por Gregory Peck.
A atmosfera mágica dos livros exercia sobre mim o poder de transportar-me para o além mundo dos lugares descritos nas estórias. Através dos livros viajei a sítios famosos como o Taj Mahal, ou mergulhei noutras dimensões do espaço tempo como a Roma nos tempos do imperador Adriano, à cidade proibida de Kublai Khan, ao Egito a época de Sinuhe, médico na corte faraó conforme narrado e descrito de forma exuberante no livro O egípcio do exuberante Mika Waltari. Por intermédio da literatura pude experimentar um sem número de vezes as mais intensas e radiantes emoções. Fui órfão nas páginas de Grandes esperanças de Dickens. Era um nacionalista ingênuo, inflamado nas páginas d’O triste fim de Policarpo Quaresma de Lima Barreto. Vivenciei o imperador romano justo e diligente em Memórias de Adriano de Marguerite Youcenar. Experimentei a delícia (preguiça& lassidão) encarnada no “herói sem caráter” Macunaíma do genial Mário de Andrade. Transpus as fronteiras do planeta viajando nas narrativas de Asimov, Ray Bradbury e Arthur C. Clarke. Vivi cada parágrafo com emoção e singularidade. Tomei tanto gosto pela arte narrativa a ponto de ensaiar minha própria literatura. Não bastasse isso, pela boca bendita de todos os poetas me descobri, ou como diria o mestre Ferreira Gullar “me inventei” compositor de música popular. Saravá!