Casa d'Aldeia é a casa original, a mais antiga habitação de minha cidade natal Cachoeira do Sul. Habitação, que, igual a cidade, apesar de tantos golpes de vento e borrascas sazonais teima em manter ao menos duas paredes de pé. Casa d'Aldeia é a minha casa. Seja bem vindo a ela!
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15 de jun. de 2011

CERTO & ERRADO: BALÉ SINGULAR, NO PLURAL!

  O amigo Marcelo Spalding  é professor, escritor e jornalista. Contudo, sua militância maior é pela cultura. Seja ela acadêmica ou de base popular. A pedido deste blog Marcelo autorizou a reprodução de um seu artigo a respeito de mais um de tantos desaforos que praticam contra a língua portuguesa. 


O certo e o errado no ensino da Língua Portuguesa
por Marcelo Spalding
 
Chegou aos noticiários nacionais o dilema de cada professor de língua portuguesa: diante das novas teorias linguísticas e, em especial, da sociolinguistica, como lidar com variações como “nós pega” ou “os carro” em sala de aula? Simplesmente apontar o erro seria reforçar o que tem se chamado de preconceito linguístico, mas deixar de fazê-lo poderia colocar a disciplina num limbo perigoso onde o vale-tudo acaba com a especificidade da disciplina.
O tema ganhou relevância graças à polêmica provocada pelo livro Por uma Vida Melhor, da Coleção Viver, Aprender – adotado pelo Ministério da Educação (MEC) e distribuído pelo Programa Nacional do Livro Didático para a Educação de Jovens e Adultos (PNLD-EJA) a 484.195 alunos de 4.236 escolas. Confira um trecho do livro, publicado pela Editora Global:
“Você pode estar se perguntando: ‘Mas eu posso falar ‘os livro’?’ Claro que pode. Mas fique atento, porque, dependendo da situação, você corre o risco de ser vítima de preconceito linguístico (…) Muita gente diz o que se deve e o que não se deve falar e escrever, tomando as regras estabelecidas para a norma culta como padrão de correção de todas as formas linguísticas.”
Professores respeitados, como Claudio Moreno, foram enfáticos na defesa do ensino do português chamado padrão, reafirmando que o papel da escola é ensinar o futuro cidadão a se utilizar da língua escrita culta, “cujas potencialidades espantosas aparecem na obra de nossos grandes autores”. Para Moreno, “os lingüistas sabem que nosso idioma é muito mais amplo do que a língua escrita culta que é ensinada na escola — mas a escola sabe, mais que os lingüistas, que essa é a língua que ela deve ensinar”.
Por outro lado, lingüistas de consistente formação acadêmica, como Pedro Garcez, reiteraram que não é uma questão de certo e errado, mas de adequação: “de certa forma, todos nós brasileiros produzimos frases com falta de concordância. Isso do nosso ponto de vista não é erro, é a linguagem natural. Esse é o português brasileiro.”, afirma o professor da UFRGS.
Claro que a questão é mais profunda do que esses exemplos um tanto grosseiros pegos pela mídia, pois outras tantas construções corriqueiras são erradas do ponto de vista gramatical, mas continuam sendo repetidas por pessoas das mais variadas classes sociais e pela própria mídia. Exemplos? “Tu vai”, “duzentas gramas”, “Houveram momentos”, “Me empresta”, “Ele trouxe para mim ver”, “Assisti o show”, etc.
No fundo o que está em jogo é a entrada de novos atores sociais no dia a dia da língua portuguesa, com suas influências e estilos. O paulistano usa “então” no começo de cada frase, um vício de linguagem horrível, mas nem por isso se discrimina o paulistano ou, por outro lado, se usa isso em filmes, novelas e livros didáticos. Mesma coisa o “r” carregado dos cariocas ou o “tu vai” dos gaúchos. Essas são as variações geográficas, por isso não causam tanto furor como as variações sociais, marcas linguísticas de classes ou grupos sociais específicos. Essa variação pode ser de interpretação, léxico, sintaxe e até ortografia (como os sempre criticados “vc” ou “tb” da Era Digital).
E o professor, em sala de aula, faz o quê? Uma das formas de lidar com o problema sem encara-ló de frente tem sido concentrar o trabalho com a Língua Portuguesa em textos, evitando a normatização da gramática e da ortografia. Mas será que, afora os exageiros, não é importante que os jovens tenham um conhecimento técnico de sua língua, e não apenas intuitivo, para melhor interpretação, correção, clareza e variação na leitura e na produção textual? Não será importante, especialmente aos futuros profissionais da língua, como comunicadores, advogados, professores de todas as áreas, cientistas sociais, etc, saber onde se utiliza ou não o “a” craseado, a vírgula, a preposição antes do “que”? E não é importante que, para isso, eles saibam pelo menos o que é um sujeito, um verbo, um objeto, um adjunto adverbial? Um adjetivo, um advérbio, um substantivo, um pronome, uma preposição?
Pode parecer espantoso, mas nem sempre eles sabem. Não com facilidade. Vejamos um exemplo bem prático do meu dia a dia em sala de aula, a frase "A expansão desenfreada da cidade é uma grande ameaça para seu desenvolvimento". Para muitos, o verbo é "expansão", o que pode causar grande confusão na hora de concordar o verbo com o sujeito e faria com que muitos escrevessem essa frase com “Há” ou “À” no lugar do “A”. Adiante, poucos percebem que “seu” é um pronome que retoma “a cidade”, ainda que um esteja no masculino e o outro no feminino.
Claro que o mais importante não é a gramatiquice, é que nosso cidadão saiba expressar-se com coerência, coesão e, mais ainda, tenha postura crítica e ideias originais. Também é importante, entretanto, que não sejam sonegadas desse cidadão as regras sociais, incluindo aí o português padrão, pois ali adiante esse desconhecimento pode acabar excluindo, ou, pelo menos, subvalorizando pessoas de alta capacidade e que lutaram muito para reescrever seus destinos.
O papel da escola, enfim, é apresentar e ensinar ao aluno a variante “culta” da língua: aprender ou não, interessar-se ou não por ela, é um direito do aluno, mas se ele precisar dessa variante e não conhecê-la por omissão da escola teremos praticado, sem exagero, um crime. Dos grave.

16 de mai. de 2011

Reestruturando a Batucada

...Trata-se isso de um drops kkkkk. Seja um drops, uma balinha desembrulhada e deixada ao sol para desmanchar-se em uma geléia. Mas, fato é que este opúsculo pouco didático se trata de um trecho do livro que ora finalizo sob o tema da tradição do Quicumbi. Folclore de origem afro sul rio-grandense presente em Cachoeira do Sul de fins do século XVIII até o início do século XX.
 
A transmigração do Quicumbi rumo ao estilo hoje referido genericamente como samba foi responsabilidade exclusiva dos músicos negros profissionais das bandas sinfônicas. Entusiastas dos ritmos de apelo exclusivamente popular: o maxixe, o lundu, o choro o tango, e a onipresente modinha muito estimados pelas camadas mais baixas da população. Onde também se ouviam e bailavam chamarritas e fandangos de marcada influência ibérica,  ritmos apreciados nos cabarés à margem do Jacuí onde tais músicos por necessidade e divertimento exerciam com muito maior liberdade sua profissão animando o ambiente nas noitadas de "função".

De uma maneira ou outra essas ocorrências pontuais - de músicos profissionais, que, fora do âmbito das bandas enveredavam pela informalidade da música popular, concorreram diretamente para que se avolumasse no seio do povo o desejo de retornar à folia das ruas. O retorno, à volta ao samba propriamente dita encerrou o propósito fundamental de reafirmar a identidade perdida mediante a vigência do preconceito e da segregação impostos também pela condição social dos indivíduos além de sua cor. Resistir ao achincalhe, expressar-se, dar vazão à todas as frustrações, extravasar na música, no canto e na dança a enorme demanda de alegria reprimida, foi passo decisivo para negros, brancos pobres e mestiços organizados suportarem a opressão de uma sociedade hostil a suas presenças. E, até hoje, indiferente à profundidade cultural, à riqueza milenar da cultura afro-rio-grandense. Cultura essa cujas manifestações folclóricas foram toleradas no tempo da escravidão como medida para suavizar a pressão a que eram submetidos os escravizados. Manobra de provado sucesso usada como válvula de escape. Alívio de tensões entre escravizados e senhores. Contudo, essa tradição popular espontânea que personificada nos Ternos de Promessa de Quicumbis, Entrudo, Bumba Meu Boi, Reisado, etc., era encorajada pela sociedade cachoeirense quando e como lhe convinha, em momento algum ao longo a história dessa comunidade foi completamente entendida ou aceita por ela. Justamente porque sua motivação calcada na sabedoria do povo (folk lore) sempre esteve adiante da razão presumida – única e simplesmente o divertimento, com que a sociedade cachoeirense (e centro rio-grandense) quis ou pôde enxergar essas manifestações. Sem a capacidade intelectual de reconhecer nelas o cabedal das tradições milenares gravado no inconsciente coletivo, na psique do povo. Atualmente o Quicumbi resiste, ainda que diluído sob a influência de vários ritmos e estilos do folclore musical afro-rio-grandense em localidades como Tavares, Mostardas e Osório - região litorânea do RS, e Rincão dos Negros (ou dos Panta), comunidade descendente de escravizados, no interior do município de Rio Pardo, região central do estado.

Quanto à estrutura rítmica atual dos Quicumbis originais, ela alterou-se através dos anos. Devido a fatores de ordem externa como a dinâmica do folclore, empréstimos feitos a outras tradições, e, sobretudo, a perda de elementos, esvaziamento cultural em consequência de desgaste sofrido ao longo do tempo.  A preservação do estilo do Quicumbi aos moldes de quando apareceu seria impossível. Acréscimos exóticos a instrumentação original composta apenas de instrumentos percussivos são anotados em Cachoeira já em 1907. Rabeca e gaita (acordeom) são presenças observadas no corpo instrumental. Posteriormente, Luciana Prass em seu trabalho de pesquisa etnomusical Tambores do Sul registra em áudio e vídeo os festejos de um Quicumbi já abastardado ocorrido na localidade de Rincão dos Negros, interior do município de Rio Pardo. Essa comunidade trata-se de um Mocambo formado por descendentes de escravizados fugidos. O Quicumbi registrado por Luciana apresentou em seu conjunto instrumental violão e gaita. Por consequência supomos que a execução do Quicumbi, naquela comunidade, ora imiscuído por ritmos e tradições estranhos a si seja muito diferente do que fora nos primórdios dessa tradição em Cachoeira e Rio Pardo. Distinto até dos festejos registrados por J.C. Paixão Côrtes na década de 1950 em Bom Retiro do Sul, Mostardas e na própria localidade de Rincão dos Panta em Rio Pardo nas décadas de  40 e 50.

Nota:

1 - Rincão dos Panta é nomenclatura emprestada da família Panta, a quem pertencem as terras desses antigos Mocambos, como é preferível classificar o reduto de descendentes de escravizados fugidos, que não se constituiu num acampamento guerreiro, termo etimologicamente adequado à palavra Quilombo.